A história
de um bilhete
Recordando Vinícius- -r-
Se, da vontade de encontrar carinho,
nossos impulsos, sempre, nos conduzem
a desejar rever, pelos caminhos
as sensações gostosas que produzem.
Queremos não ficar, nunca, sozinhos,
fazemos que as mensagens se entre-cruzem
os céus, o éter, tudo e de mansinho
tirem dos corações toda ferrugem.
Agora, ao receber o bilhetinho,
eu sinto despertar, lá do cantinho
o adormecido gosto da aventura.
Já este bilhetão vai, no teu ninho,
pedir mais acolhida, só um pouquinho,
"que seja eterno, sempre, enquanto dura."
Fahed Daher -Médico.
CAMA DE CASAL
® Fahed Daher
O casal tomado de amor
quer estar junto,
unido, convivendo,
no ardor
do ajuste falado ou sentido
e mesmo dormir , vivendo
juntos e juntos acordar,
num sonho decidido .
Sonho do amor racional e consciente
Com carinhos, caricias, gentilezas,
nas lidas diárias,
trazendo a inspiração para o deitar
e deitados, após o orgasmo,
a permanência lado a lado,
trocando mensagens de afeto,
mesmo calados,
apenas mantendo mão com mão
ou tocando de leve a excitação ,
no corpo, um do outro.
Unidos voluntariamente,
na liberdade de pensar e agir
sentindo a alma se unir à alma,
aguardando, depois do gozo a calma
que faz o sono chegar.
Amar apenas pode ser amar,
no afeto racional,
se puder compor um projeto de vida,
pensado, analisado, ou apenas sentido,
podendo discordar juntos,
mas juntos construir.
Deitar juntos, para os desejos,
ou simplesmente para deitar ;
acordar e se cumprimentar em beijos
como pessoas que ficaram tempos distantes
e voltam a se encontrar.
Deitar e levantar juntos
é um processo de viver o amor ,
não como dizem alguns jovens imaturos
ou como costumam dizer alguns cínicos
na exploração inconsequente do gozo :
--“vamos fazer amor ...“--
Com se amor fosse massa
que se pode moldar e compor
ao gosto do momento,
como tudo que passa,
para em seguida ser lançada ao espaço
e ao esquecimento, sem deixar um traço,
na responsabilidade,
sem interesse da ansiedade
ou da expectativa do parceiro..
Deitar juntos, viver juntos,
sonhar juntos, sem nunca morrer,
acreditando na eternidade
que há de existir, na verdade,
quando este amor faz crescer,
nessa união decidida,
outra vida.
EU SOU
No despertar de tudo fui poeira etérea,
nas eternas fissões dos átomos dos mundos,
e me fizeram terra e água e a matéria
e sexo fecundo.
Sou produto de tantas forças antagônicas,
forças, umas atávicas, outras modernas.
biblicamente sou produto das orgânicas
massas de barro e dos pecados das cavernas.
Sou fruto das caçadas, lutas e do medo,
de disputas tribais, deuses imateriais,
de grandes descobertas, de simples segredos,
de fogos fascinantes e horror dos temporais.
Fruto das guerras, fome, das epidemias,
das ondas hertesianas, ganâncias doentias,
das explosões atômicas, dos grandes mercados,
das grandes descobertas e homens programados.
Refletem no meu ser influências tamanhas
de alimentos e hormônios nas funções vitais.
De mil ebulições nas veias, nas entranhas,
das sensações de angústias, das pressões morais
Mas também sou produto do raiar da aurora,
do sol poente, à tarde, em frescas viração,
da rosa, do jasmim, da cascata que chora,
do sorriso, do olhar, da alma na canção.
Em mim também reflete o sossego dos campos,
da semente plantada e do fruto colhido,
do rebanho paciente e luz dos pirilampos,
da oração não falada e o desejo contido.
Sou produto, também de dois seres amados,
do ventre que gerou-me, o décimo no afeto,
amamentado ao seio, entre amores, cuidados,
e do amor paternal de homem rijo e correto.