O Cavaleiro e o Dragão



 

 

 

Sou o Cavaleiro do asfalto,
Tenho um mitológico
dragão.
Causídico eterno dos poemas
e traço cores com
paixão.

Entretanto, não sou poeta
e nem sei sequer
amar...

Sou um deserto árido,
causticante e desapiedado...
Quem me ousa ávido,
tomba inerte e desvelado...

Mas... Que oásis é este
que há em mim?
Que cobiça o peregrino,
quão amaina o sedento?

A noite cai e me sombreia...
A obscuridade me apraz.
Por serem lôbregos,
que coexisto com as tais.

Mas que luz é esta
que abrolha do alongado?
Dizimando o crepúsculo,
incitando enamorados?

Não...
Não faço ode e ignoro a ternura...
Sou a ventania austera
a devastar folhas viscosas
das flores varonis...

Então, por que tais refloriam?
Como das cinzas,
revolvem outras relvas
que cá deslumbram?

Meu ruidoso bestial
a teus sentidos abespinham...
Num salto preciso e mortal,
dentes e garras te atassalham...

Mas, que rosto clemente
cujo olhar passível
arresta o pulo eminente
poupa a presa vencível?

Sou um rio revel.
Num avanço ondeante
alastro o pélago exorbitante
com furor e escarcéu...

Quão após esta peleja
sentimentos abrandados
no silencio que corteja,
nos mantemos coligados?

Dou-te minhas costas,
cerro-te meus ouvidos,
pois proferes em tuas súplicas,
um amor desconhecido...

Então,
porque voraz num ser confuso
partículas de cobiças fulgentes,
enfatiza o poema infuso
e excita o amor clemente?

Sou um Mago causador.
Meu olhar hipnotiza
o meu toque martiriza,
nulifica...
Intensa dor...

E se ergo o meu cajado...
Oh ! Resto do orbe !
Só não vos lanço execração
porque...
ignoro a direção...

Ah !
Mas não há ira no peito
deste ente que conduz.
Forjado de tantos feitos
tão de encanto, quão de luz !

Não... Não cunho versos...
E nem mesmo sei amar.
Meu enigma é notável...
Quer me desvendar?

Traga pena, papiro e candeio...
Vem me doutrinar!

Antes, todavia convém
Que desvende a ti também...

Autor: Cavaleiro Mago
Junho: 12 - 2003

 

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