A Missa do Galo

PELO HISTORIADOR MOACYR MALLEMONT
(In Memoriam)1941/2007

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Desde o Século IV, o Natal é comemorado no dia 25 de Dezembro, conforme recomendação do Papa Júlio I. Natal, como o natalício de Cristo. Não como uma Missa ou uma Festa. No entanto, no Século V, no ano de 476, ocorre a “Queda de Roma”, que já vinha se prenunciando há décadas. As fronteiras do antigo império ruem. Começa então, efetivamente, a serem costuradas as vigas da Civilização Ocidental Cristã. Há uma profunda alteração nas normas econômicas da sociedade ocidental. Na visão marxista, passamos da economia escravagista, para a economia feudal. 

Catequizar e levar a mensagem de Cristo por toda uma Europa desconhecida, é o gigantesco desafio. É a época da construção das Paróquias, do grego Paroikos, que significa “estrangeiro”, no sentido de ser um ponto de repouso espiritual, na caminhada da vida. Mas, sob o ponto de vista da população, arraigada a uma cultura pagã de mais de 5 mil anos, o trabalho pode ter sido mais penoso e duro do que possamos imaginar. A reação à nova classe sacerdotal que se impõem, gera conflitos com esses hábitos milenares.

Mas havia também outras razões, pelas quais a Igreja Católica tinha sérios motivos a temer, no caso de uma comemoração festiva do nascimento de Cristo. Certas manifestações tradicionais e não bem-vindas, se desenrolavam por toda a Europa, nas proximidades do dia 25 de dezembro. Nem sempre em função direta do que o dia 25 de Dezembro passou a representar. Mas também pelo que ele representava antes do nascimento de Cristo.  Em Roma, entre os dias 17 e 24 de dezembro, costumava reinar uma grande desordem. Neste período, os escravos mandavam seus senhores os servirem à mesa. Nos grandes palácios, os soldados o decoravam com galhos de árvores e elegiam um deles, o seu Rei. Na França e em outras regiões da Europa, durante a Idade Média, celebrava-se a “Festa dos Tolos”. Ela se desenrolava no dia 25 de Dezembro, ou na semana seguinte. Esta encenação ridicularizava os Sacerdotes e os dignitários da Igreja. Os participantes que usavam máscaras e vestiam roupas de Padres percorriam as cidades representando uma sátira cruel da Igreja; paródia da Missa, danças e cantos profanos, blasfêmias, etc. Esta festa parece ter se extinguido por volta do século XV, ao fim da Idade Média.

A Igreja Católica preferiu então destacar o Dia 25 de Dezembro, com fatos relevantes ao cristianismo, como por exemplo;

-   No ano de 506, Clóvis I, Rei dos Francos, foi batizado no dia 25 de dezembro, em Reims, na França. Tendo abraçado o cristianismo, seria de se esperar que seu povo o seguisse. Assim a relevância do fato, no dia 25 de dezembro, elevou a data no sentido místico, por ter se tornado um marco na História dos Francos e da Europa.

-   Na Noite de 25 de Dezembro de 800, Carlos Magno (742-814), Rei dos Francos, é coroado em Roma, perante o Papa Leão III, Imperador de todos os Germânicos. Para melhor compreendermos a importância do fato, todos os reis e imperadores franceses, até o Século XIX, incluindo Napoleão Bonaparte, empunharam sua espada, no sentido de unidade. A Europa passa a ficar fortemente unificada, política e religiosamente.

-   A consolidação se estende às Ilhas Britânicas, quando o rei normando William, também conhecido como “O Conquistador”, assume o trono da Inglaterra, no dia 25 de dezembro de 1066.

Outros fatos menos relevantes, mas igualmente importantes, passam a construir uma áurea em torno da data. Ela se tornaria madura um pouca mais tarde, com a expulsão dos últimos hereges da Europa. Os Muçulmanos que haviam chegado até Poitiers, no coração da França em 900, são expulsos da Espanha em 1492. Neste mesmo ano Cristóvão Colombo alcança as Antilhas, chegando a São Domingos em 25 de Dezembro. E, os portugueses desembarcam no Brasil a caminho das Índias, na Páscoa de 1500. Portugal percorre o mundo, com o estandarte da Cruz de Malta em uma das mãos, e a espada na outra. “Por Jesus, por Maria e por José”.

         Tendo se imposto em todos os continentes, começa o momento de estabilização e de festividade.

        Todos que pesquisaram a Missa de Natal, como a conhecemos atualmente, concordam que a celebração começou na Alsácia, região fronteiriça da França com a Alemanha, no século XVI. Atualmente a cidade de Strasbourg, capital da Alsácia, é o berço da Comunidade Européia das Nações, e por isso cedia o Parlamento Europeu. O debate hoje, entre os estudiosos, fica em torno de quem celebrou a primeira Missa de Natal. Católicos ou Luteranos?

Com o passar do tempo, a crença na data, se tornou realidade. Foi necessário então, oficializar liturgicamente a Missa de Natal. Desta organização surgiram, quatro missas de acordo com as Leis Canônicas; a da Vigília Noturna, a da Meia-Noite, a da Aurora e a da Manhã do Dia 25 de Dezembro. No impedimento de se realizar as quatro Missas, seria celebrada penas a Missa da Meia-Noite, a “Missa do Galo”. Creio que será extremamente extenuante e difícil, o exercício mental de querer compreender a razão de tantas Missas. A Bíblia não faz nenhuma menção a uma determinada Missa, ou mesmo à Missa do Galo. Em relação a este animal, apenas menciona a negação de Pedro, antes do terceiro canto de um outro galo (Mateus 26,34). O galo tem em seus sentidos, o privilégio de perceber dentre todos os seres vivos do reino animal, que o dia, em breve, vai raiar. Por isso também, ganha os telhados, junto com a Rosa dos Ventos, apontando o caminho. Que um novo começo surgirá em breve, para todos os que desejarem participar da nova Aurora. O despertar para a vida. Sempre renovada. Revivida!

A religiosidade dos povos ibéricos, que tiveram de lutar durante séculos contra o domínio muçulmano, criou no imaginário popular, a "Missa do Galo". Nas aldeias portuguesas é comum o povo levar galos para a Missa da meia-noite de 24 para 25 de dezembro. 

Leia a “Missa do Galo” de Machado de Assis. 

 

http://www.estacio.br/rededeletras/numero9/minha_patria/missa_galo.asp 

 

Fatos, Curiosidade e Superstições Natalinas

  • "Eu honrarei o Natal de todo o meu coração, e tentarei faze-lo vivo durante todo o ano".
    Charles Dickens (romancista inglês, 1812-1870), autor de "Contos de Natal" (1843), "David Copperfield" (1849), etc.

  • "Eu ouvi os sinos de Natal,
    Os velhos e familiares corais cantando,
    E as doces palavras repetindo,
    Paz na Terra, para os homens de Boa Vontade!"

    Henry Wadsworth Longfellow (poeta norte-americano, 1807-1882), autor dos poemas "Evangélicos" (1847).

  • "Quem não encontrar Cristo no Coração, não vai acha-lo debaixo de uma árvore"
    Dito Luterano

  • "No dia de Natal, até os animais podem falar." Testar esta frase pode trazer má sorte!
    Dito Popular

  • "Crianças que nascem no dia de Natal, tem uma sorte especial."
    Charles Chaplin, nasceu em 25 de dezembro de 1889.

  • Na Irlanda acreditam que os portões do céu se abrem à meia-noite do dia da Natal. Aqueles que morrem nesse dia vão direto para o céu.
    Humprey Bogart, ator de "Casablanca", faleceu nesta data em 1957.

  • Na Grécia costumam queimar os sapatos velhos na noite de Natal, para que eles não tragam azar no Ano Novo.

  • Em Devonshire, na Inglaterra, as garotas dão um tapinha na porta do galinheiro na noite de Natal. Se o galo cantar, é sinal de que ela se casará em breve.

  • "Uma ventania na noite de Natal, é sinal de Boa Sorte!"

  • Dentre todos os gêneros musicais, o recordista de vendas de discos em todo o mundo, até hoje, com mais de 30 milhões de cópias, foi o cantor norte-americano Bing Crosby, com a música White Christmas (Natal Branco).

       Em 25 de dezembro de 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, os soldados alemães saíram de suas trincheiras cantando músicas natalinas. Os aliados de início pensaram que era um truque, mas logo depois, também saíram de suas trincheiras para confraternizar. Trocaram cigarros, latas de ração de comida e até mesmo organizaram partidas de futebol ...

Fundo musical - White Chrismas (Natal Branco), na interpretação de Bing Crosby.

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