A Ceia de Natal

PELO HISTORIADOR MOACYR MALLEMONT
(In Memoriam)1941/2007

 

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    A palavra "Ceia" vem do latim "caena", que significa "refeição à noite". No entanto, há uma forte conotação religiosa no uso dessa palavra, que lembra "A última Ceia" de Jesus com os Apóstolos.      Nesse sentido, supera a idéia de uma simples refeição. 
     Milhares de anos antes de Cristo, os Celtas, na Europa, comemoravam com grandes refeições coletivas, as épocas mais importantes de seu calendário lunar. Os mais fartos, eram sem sombra de dúvidas, os do final do ano, onde agradeciam a fartura da colheita. Hábitos e cerimoniais com a alimentação, levaram séculos para serem aceitos e estabelecidos, em cada tipo de civilização. 
     Por falta de fontes escritas e até mesmo confiáveis, as notícias dos hábitos à mesa, só são melhores conhecidos, após o século XV. Nessa época, como no passado, o povo em sua enorme maioria, morava em casas de um único cômodo, que servia para todas as finalidades da família e da criação. E, no inverno, ainda compartilhava este espaço com os ruminantes, que também precisavam sobreviver.
     Havia uma lareira que servia para cozinhar e esquentar o ambiente à noite. Uma panela de ferro no fogo, sobre a mesa uma tigela, um arremedo de colher, e a faca de múltiplas serventias. Todos se serviam com a mesma colher e faca. E, por vezes, com os mesmos dedos sujos, da mesma mão materna. A fartura não era uma companheira usual. Até o século XVI, não havia garfos. Uma princesa italiana levou a novidade turca que servia para ajudar a cortar a carne, para os salões de Versailles, quando tinha somente dois "dentes". Bravo! Não seria mais necessário cortar-se a carne com uma das mãos, enquanto a outra evitava que escapulisse pela mesa, em direção ao chão. 
     Mas o que é que o povo comia? Pouco e muito mal! E, ainda tinha que dividir com o dono da terra, uma parte do que colhia. Caçar era privativo apenas dos nobres. Uma fatia de carne, era às vezes lembrada por mais que um semestre. E, o que se comia, era o que se plantava em torno da propriedade, além do leite, queijo e ovos. E, o vinho...
     Foi preciso haver portanto, um excesso de produção para poderem apreciar e comemorar, sem a necessidade de primeiro saciar a fome. Um longo, tanto no tempo quanto no espaço, e desigual processo que se estendeu por toda a Europa. "A Última Ceia", só existia nos vitrais das Igrejas e Catedrais. 
     Em Portugal, país voltado para o mar, criou-se o hábito, como seria natural, de se comemorar a Ceia do Natal, tendo com base pratos à base do bacalhau e outros frutos do mar, rabanadas e filhós. Era, o que a terra e o mar, proporcionavam. Foi essa herança alimentar que recebemos. E, no Brasil, os primeiros colonos procuraram adaptar as tradições culturais, à realidade de nossa agricultura e fauna. Não tinha bacalhau, que prefere águas geladas às mornas, dos mares tropicais. Trigo e Azeite, nem falar. Na carta a El-Rey D. Manoel, Pero Vaz de Caminha relata o espanto da primeira visão dos habitantes de nosso solo, os Patajós, ao se depararem com uma galinha. Espanto e medo.
     A Missa Natalina que surge na Alsácia, no século XVI, sugere uma reflexão sobre Jesus, em torno da mesa. Começam a se delinear os primeiros contornos da "Ceia de Natal". Reflexão e agradecimento. 
     No norte, os Peregrinos do navio "Mayflower", trazem em suas bagagens, a cultura anglo-saxônica dos antigos Celtas. Em 1621, é celebrado pela primeira vez o "Dia de Ação de Graças" (Thanksgiven Day). Até 1941, vamos conhecer quase uma dúzia de referências, razões e datas, quando finalmente o Congresso Norte-Americano decreta sua comemoração na 4a quinta- feira de Novembro, recheado de perus, nozes e amêndoas, próprios para a estação fria, no Hemisfério Norte. A americanofilia que varre o planeta Terra decretou, que todas as nações, em todos os Continentes, tem que comer a mesma coisa. Imprópria para o nosso clima, e época do ano, só faz engordar o bolso dos comerciantes. 
     Imaginemos, que Cristo, que está dentro de cada um de nós, tivesse ocasionalmente se revelado ao mundo na Austrália.      Estaríamos todos comendo lagartas, o alimento mais nutritivo em proteínas, dos aborígines daquelas inóspitas bandas.
     O "Dia de Ação de Graças" norte-americano, já tem em si uma tradução deturpada do "Thanksgiven Day", é quase uma repetição do penúltimo festival Celta. Seguindo a tradição, vem logo depois o "Halloween", onde bruxas e duendes saem da floresta, distribuindo "travessuras ou gostosuras" no último dia de Novembro.
     O extenso, rico e piscoso litoral brasileiro, tem condição de proporcionar através do milagre da multiplicação dos peixes, a redenção alimentar de nosso belo país. "Picis" continua sendo o símbolo do cristianismo, apesar de na virada do milênio, termos mergulhado no signo de "Aquarius". 

Receitas Portuguesas

RABANADA

As rabanadas se originam de um prato francês chamado Pain Perdu (Pão Perdido).

 


Ingredientes: 
1 pão de véspera
3 dl de leite
4 ovos
300g de açúcar
canela
casca de 1 limão
óleo. 


Preparação: 
- Junte o leite com 2 colheres de sopa de açúcar e a casca do limão - Eleve a ferver. À parte, bata os ovos. 
- Corte o pão em fatias e passe primeiro no leite, depois nos ovos, e frite no óleo bem quente. Escorra num papel absorvente, e passe depois num prato com uma mistura de açúcar e canela. 


FILHÓS 

 


Ingredientes: 
1kg de farinha de trigo
500g de abóbora
2 laranjas
1 cálice de aguardente
15g de fermento de padeiro
sal
óleo
açúcar
canela 


Preparação: 
- Desfaça o fermento de padeiro num pouco de água morna com sal, e junte à farinha previamente peneirada.
- Junte também a abóbora cozida e em purê e o sumo da laranja.   

- Amasse muito bem e junte a aguardente.
- Envolva o recipiente da massa num pano e deixe descansar num local temperado, até que dobre o seu volume. Com os dedos molhados em água fria retire bocadinhos de massa e estique, para obter filhós muito finos. Aqueça bem o óleo e vá fritando as filhós até alourarem. Passe-as depois por açúcar e canela.

 

 

Fundo musical - Natal Brasileiro.

 

 

 

 

 

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