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Apostasia
Ubirajara Mello de Almeida 

Para ser poema
Não penso a palavra:
Basta o vazio
Encravado n’água
O silêncio
Que sobre a luz
Se espalma
No tempo pensado
Em nuvens
Como nada.

Para ser palavra
Não basta o poema:
É preciso o verbo
Estancar o sangue
Nas imprecisas linhas
Do solitário canto
Que se fez canção.

Como o suicida
Instintiva o amor 
Na bestial ferida
Insepulta da dor.



Soneto
Ubirajara Mello de Almeida


Vive minh’alma no silêncio do espelho,
Caiu na armadilha à toa, embriagada.
Inquieta e perdida grita emoldurada
No limite banhado de vermelho,

Fala o corpo, livre da sombra e da agonia.
Agora dança feliz sem medo do pecado,
Longe da servidão que o afligia
Não tem noção do presente e do passado.

Insensível, traz o coração sem vida,
Enlouquece com toda bebida,
Dorme, acorda em paz, com calma.

Solitário e sem luz, vagou errante,
Da liberdade voltou ao brilhante
E louco em prantos agarrou-se à alma.



Soneto
Ubirajara Mello de Almeida


Beijei as mãos como se fossem pés
Na sutil paixão da boca em fogo
Quando os corpos quentes e fiéis
Se entregam a sedução do jogo.

Alucinado repeti o beijo
Confirmando lasso todo intento
De sedutor morto de desejo
Na fonte que cobiça o sedento.

O anjo amado ruboriza a face
Fria e foge do fatal galante
Faminto como larva na alface.

Cheirando a mão doce de perfume
Ainda tonto o solitário amante
Despertou numa poça de estrume.




Labirinto
Ubirajara Mello de Almeida


Do silêncio ao sonho
O limite é a pedra
Arquitetada em pleno
Vôo do sono.

Não é pedra que se pese
Nem o corpo se retrata
A distância é medida
Na sua forma abstrata.

Não se prepara um sonho
Sem seduzir a paixão
Já o silêncio se lavra
No canto da solidão.

É preciso tecer o engenho
No desejo da manhã
Saber a arte do fuso
Além de barro e de lã.
É preciso fiar a sorte
Para medir o destino
De cada um é a sina
E de todos: desatino.



As Dores
Ubirajara Mello de Almeida


Há dor que sangra mas não mata,
Mostra a face e oculta a faca
No lado esquerdo do peito
Onde toda vingança se aplaca.

Há dor que salga a pele
Mas não seca em varal,
O curtimento é no corpo
A custa de muito sal.

Há dor que o sangue envenena
E congela o mal nas entranhas,
Não é castigo fatal, é morte lenta
Que desafia a sorte ou condena.

Há uma dor consentida
Que se antecipa à razão,
Consome igual a ferida
Encravada em cada mão.



RE-VERSO
Ubirajara Mello de Almeida


Com quantos paus se faz um verso
No lume augusto do poema?
- Fruto de madrigal imerso
Na sentença única do tema.

E se o rio correr contrário
Com troncos e rimas de volta
Pra nascente de outro estuário
Onde a língua fêmea se solta?

Sem voz perdem-se vocalises,
Só os lamentos das meretrizes
São cantos nas noites desertas.

Eu sei das palavras matrizes
que geram as cicratizes
e urdem as dores dos poetas. 

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  30.01.2012