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*Fim de Tarde
Sonia Nogueira

O olhar deita na tarde que se finda
O sol disfarçado foge do lento dia
Na água o reflexo tremula agonia
Espera a volta da claridade, ainda

Que as luzes da noite se deleitem
Feito vaga-lume bordando o Céu
Encontro nesta hora muito além
Resíduos de saudades canto fiel.

Tudo é silêncio na penumbra aqui
No meu olhar sereno, vem à noite
O som das águas eu ouço bem ali
Deitada na areia da praia o açoite.

Das ondas num vai e vem suave
Fingindo fragilidade ao seu dilema
Missão que a natureza sem maldade
Ordena labuta diária em cantilena.

Quem há de olvidar de tal poder
Da força sobre nós pobres criaturas
Capazes de criar no frágil padecer
Mistério sob nós, sonho é aventura.

Sonia Nogueira



*Amo-te

Como o beijo suave do beija-flor
Sugando a vida sob meu olhar pasmo
Nas manhãs no jardim mel e condor
Roubando o néctar pouso e espasmo.

Amo-te aqui, além no plano oculto
Da inconsciência dos meus quereres
Como sombra firmada no teu vulto
Nas palavras domadas dos saberes.

Amo-te como o sol na quietude
Tocando nas marés em sintonia
Teclando cada raio rito e amplitude
Quedando o sonhar que me irradia.

Amo-te sem causa sem rosto findo
Mas, te amo assim sempre infinito




* Meus Horizontes

Mesmo longínquo, eu cá te espero
Solto os cabelos, entrego ao vento
Num murmúrio preparo o tempero
Mistura de sal com doce esmero.

Na estrada uma luz sobre a janela
Crescendo no silêncio mui distante
Luz que nunca apaga, é sentinela
Olhando o nevoeiro sonho amante.

A porta entreaberta numa fresta
Em volta luz e vento confabula
Gozando da aragem entre festa.

Abraça meu pensar, a mente nua
Desseca toda alma mais secreta
E busca na emoção imagem tua.



*Sossego

De tanto sossegar eu me perdi
No pensamento órfão, aquietado
E quando eu acordei me percebi
Mais órfão ainda em meu passado.

Era tanto sossego nas palavras
Nos atos, na lida, nos meus versos
Que a criação, criava as travas
As palavras bebiam meus desertos.

A calma inda perdura sem conserto
Os sonhos acomodados na janela
Ansiando orquestra num concerto.

De tanto persistir o tal sossego
Criei uma canção, pintei na tela
Um rio caudaloso, um aconchego.


*Tenho fases como a Lua

Sou crescente no abraço, no sorriso
Qual árvore da semente emergindo
Cada dia na espera vem suspiro
O sonho na imagem é paraíso:

Enche-se de claridade solta brilho
Revela nas palavras, estado d’alma
Tudo em volta traduz via e trilho
As cruzes somem tudo é luz e calma.

O tempo traiçoeiro de surpresa
Arrasta outro olhar palavra rude
Minguante oferece a sobremesa.

E conflitantes ide e superego
Reagem busca além na latitude
A lua nova equilíbrio sob o ego.

Sonia Nogueira

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  26.01.2012