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DETALHE NO FIO
Sandra Fayad

O velho par de tênis masculino,
Tão cansado de jogar futebol,
Jamais poderia prever o destino
De findar estorricado ao sol.

Idênticos, são gêmeos siameses
Atados por cadarços umbilicais,
Expostos há dias ou talvez meses
Como roupas a secar nos varais.

Até que se desintegrem suas algemas,
Só os vê quem pretende buscar no céu
Jóias inspiradoras aos seus poemas,

Ou quem da travessura foi o autor
De lançar sobre a fiação aérea
O que dos pés era santo protetor.


NEM Q-BOA, NEM LIQUI-PAPER.
(Soneto dos Namorados)
Sandra Fayad

Namoraram Adão e Eva: namoro por Deus abençoado!
Já com Romeu e Julieta, foi familiar namoro proibido. 
Namoraram D. Pedro I e D. Inês: é amor eternizado.
Com nosso D. Pedro e Domitila significou amor traído.

Amaram-se Napoleão e Josefina (exceto em batalhas). 
Em meio a batalhas, namoraram Prestes e Olga Benário. 
Richard Burton e Liz Taylor, envoltos em felpudas toalhas,
Namoraram a dourada canarinha e seu dourado canário.

Namorando teu olhar, convencida que me tens amor,
Animei-me a plantar e depois cultivar belo orquidário,
Para no dia dos namorados te ofertar uma nobre flor.

Abençoado por Dom Bosco, nosso namoro será eterno.
Mergulhado na Q-boa, não desbota, nem muda de cor,
Nem se apaga com liqui-paper da nossa vida-caderno.


A MUSA E O PAR
Sandra Fayad


Essa loucura que nos domina
É prenda que a vida oferece.
Onde estamos, para onde vamos?
Nada interfere no que acontece.

Os sonhos são suaves, úmidos.
Os ventos sopram na mesma direção.
Os dedos catam letras de amor
Para compor as frases da canção.

No teu céu que é meu também
Estrelas caminham com as nuvens,
Anjos dançam e cantam amém.
.
Há um ponto definido no universo
Onde serei única musa do teu poemeto
E serás único par para meu dueto.


Artesã (Soneto) 
Sandra Fayad

Nem sabes o estrago que fazes no meu coração!
Meus olhos (tristes) sorriem à tua imagem.
Nos meus sonhos, és constante perseguição.
Do meu filme, és o principal personagem.

Vejo-te sempre e tão bem iluminado
Em cada canto da face nua exposta,
Ofertando sorridente um bocado
Da beleza descoberta em cada encosta.

As tentativas de fugir de ti são vãs...
Como um imã me atrais de volta
A mais um soneto da minh'alma artesã.

Mesmo que atrás de ti haja forte escolta,
Não perco a esperança de apaixonada fã
E armo-me das Letras para a reviravolta.




LANÇA-PERFUMES
Sandra Fayad

Sou lança-perfumes dos velhos carnavais; 
Extasiante, provoco em ti doces delírios. 
Transformo-te em meu amor e muito mais... 
Sorvo teu cheiro, findando meu martírio. 

Sou erva proibida plantada às ocultas; 
Alastro-me por prados de rincão distante 
Rumo ao beijo ardente que me facultas 
Em momentos de desejo agonizante. 

Invado o núcleo das tuas células-mães 
E não me arrependo de invadi-las, não. 
Ladro ali dentro como ladram os cães. 

Alimento-me delas como se fossem ração 
Para suprir minhas carências contidas 
De vida flutuante, em eterna levitação. 

 



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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  24.01.2012