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STELLA MATUTINA
Rommel Werneck 

As estrelas são figuras do passado
Que adormecem pálidas pela manhã
E despertam lúgubres de cintilado
Predizendo em plenas trevas o amanhã.

E trajando um manto de nuvens eternas
Elas, santas, sacras, sábias da verdade,
Adornadas sempre por jóias supernas
Resplandecem mesmo na vil tempestade.

Mas ressurge estrela que as outras ofusca
Derrotando a chuva, derrotando a vida...
Nela cada estrela a luz suprema busca

Cada ser procura consolo, esperança...
E a beleza dela é tão grande e perdida
Que a mim seu sublime raio nunca alcança.



NO FIM DA NOITE

Good night!


No fim da noite, escorre a maquiagem,
O perfume desliza e perde o brilho,
O príncipe revela-se selvagem,
E à casa volta o pródigo e bom filho.

O meu castelo volta a ser miragem,
Transforma-se a madrinha em maltrapilho,
Desaparece a minha carruagem
E resta escura a estrada que bem trilho.

No fim da noite, a Lua desfalece...
A vida vai perdendo a florescência...
A morte vai virando mulher bela...

E parte tão veloz a Cinderela,
Embalsamada em tanta consciência,
Que nem mesmo os sapatos ela esquece!





OS LÁBIOS DO VENENO

“O churl! drunk all, and left no friendly drop to help me after? I will
kiss thy lips. Haply some poison yet doth hang on them to make me die with a restorative. [Kisses him.]”
The Tragedy of Romeo and Juliet. Shakespeare. Act V. Scene III


Jazia embalsamado o bom Romeu
Guardando nos seus lábios um veneno
Que no sabor fortíssimo e sereno
Foi-lhe tirado o mundo que era seu.

A dama Capuleto, em amor pleno,
Despertando, uma morte percebeu.
Entonces, ao punhal vil recorreu
Eternizando a dor no sangue ameno.

Mas, antes, contemplou bem Capuleto
O seu virgem mancebo lá deitado
Sobre o tão tenebroso e gris sepulcro.

Àquele resplandente rapaz pulcro,
Tomou dos lábios lúgubres do amado
O beijo como lânguido amuleto!



PÁLIDO PECADO

Oh! Pálido Pecado da gris Morte,
Numa misteriosa e bela dança!
O jogo dos olhares... Esperança!
O movimento quente, lindo e forte...

Oh! Pálido Pecado que em mim lança
Fascínio, sedução... Oh falsa sorte
Que me deixa sem luz, céu, vida e norte!
Maldita e imaculada! Triste dança!

Oh! Pálido Pecado... Juventude...
Dança, dança, divina grã-beleza!
Dança, dança, lasciva grã-pureza!

Dança sem fim, desejo atormentado...
Virtude escura... Pálido Pecado...
Oh! Pálido Pecado de virtude!



O OUTRO

Oh! Não, não fales d’outro em minha frente,
Porque ainda sou teu terno marido.
Piedade, mulher, do corrompido
Coração que te prostra eternamente.

Todos sabem que sou homem perdido
E que tu amas outro intensamente!
Todos falam ó sempre e de repente,
Falam sobre mim, o homem esquecido!

Não olhes o outro estando tu comigo!
É que quero banhar-me em ilusão!
Faz de conta que eu deito-me contigo,

Mas não fujo das coisas como são!
Eu relembro somente o tempo antigo:
Sacramento d’amor sem traição!

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  29.01.2012