QUERO SER LIVRE E VOAR
Rogério Martins Simões
A incerteza te leva: espreita.
O silêncio rasteja: chocalha.
A angústia derruba e ajeita;
Ajeita e a tua sorte baralha.
Tudo me prende, e me sujeita:
À dor que este teu corpo talha.
Sinto que o peso desta maleita,
Aceita o que na sorte nos calha...
Avanças no tempo e no medo
Tu és areia e eu sou rochedo
Estou pronto para debandar...
Livre da dor e do tormento
Nas asas estendidas do vento
Corpo; quero ser livre e voar!
Praia das Bicas, Meco, 15/05/2010 23:31:26
(Registado no Ministério da Cultura
- Inspeção-Geral das Atividades Culturais I.G.A.C. –
Processo n.º 2079/09)

PLANÍCIE EM DESFOLHADA
Rogério Martins Simões
Desenhámos corações de sabão.
Veio o vento levantou o perfume.
De pele macia sopravas o lume,
Ateando nossa fogueira no chão…
Deixámos sentinelas de plantão:
Não viesse o vento por ciúme,
Antes que atingíssemos o cume…
De novo, roubar-te o coração.
E eras a planície em desfolhada.
Tinhas os teus frutos maduros...
Fonte dos desejos; olhos puros.
E o vento acabou por nos deixar,
Cobrindo de pétalas o teu olhar,
Ao olhar! A tua seara ceifada…
Lisboa, 07-12-2010 19:33:14

PRIMAVERA
Rogério Martins Simões
Há pouco,
quando a noite deixou de chover;
quando o gelo se deixou derreter…
fiz-me à estrada.
Estou a andar! Preciso de andar.
Releio e vejo
Florbela Espanca,
Lívida da febre,
em seus versos tristes,
(delírio),
a escrever a “má visão”.
Revejo-a ali,
naquele branco lírio,
entre os pinheiros crescidos,
do horizonte,
e à distância a que me encontro,
defronte,
neste espaço do caderno.
Esvoaçam lágrimas
volto a andar por veredas
sem antever que rente
revejo o trilho doente
da sua aparição…
Esta noite choveu,
ando,
estamos a andar…
Olho o monte das folhas secas…
Onde despontam os matos
E os cogumelos de tantas cores.
O sol está raiando
Tenho luz à tua espera…
Vai! É primavera!
À minha frente abre-se uma estrada,
entre pinheiros,
que tenho de percorrer.
Não posso parar;
Gostamos de escrever.
Vai! É primavera.
Um melro assobia,
outro responde
-É primavera!
Um besouro chegou,
sei lá de onde?
Chegou!
É Primavera
Os botões das roseiras
dão-se a conhecer
às folhas novas
que os viram nascer:
-É primavera
Duas borboletas ensaiam um baile.
Vieram ter comigo.
Querem ir contigo…
Na primavera.
O sol está queimando
Temos luz à nossa espera,
Vai…
Que eu estou chegando…
É primavera!
Campimeco, Praia das Bicas, Meco, 1/4/2011
(Registado no Ministério da Cultura
Inspecção-Geral das Actividades Culturais I.G.A.C.
Processo n.º 2079/09)

PAPOILAS DA ALMA
Rogério Martins Simões
Enquanto na planície o sol dançava,
De noite os seus desejos cresciam.
Pálida neve! O seu rosto nevava…
De olhos cansados dores sorriam.
Da janela da noite suspirava:
Desejos seus, proibidos, partiam:
A seara infecunda secava…
E as papoilas da alma nasciam…
E quando a bruma o seu corpo levou
O Alentejo, cantando, a chorou
Nos seus lindos poemas de amor.
Mas se os amores lhe foram adversos
Nem a morte apagou os seus versos:
Para sempre! “Charneca Em Flor”...
Meco, Praia das Bicas, 24-10-2011 21:54:38
(A Florbela Espanca)

OS OLHOS DO CORAÇÃO
Rogério Martins Simões
Deixasse eu de ver numa idade menor,
Quando nem a força segura o alazão…
Não te iria encontrar na idade maior,
Onde não se vê pelos olhos da paixão.
Se meus olhos cansados vêm pior,
Não importa apurar por que razão:
Com eles assim eu te vejo melhor,
Abrindo o olhar no meu coração:
Foi no teu coração, de bem-querer,
Que teus olhos me viram, sem te ver,
E por ali andaram quase até cegar…
E se tarde tardaram em descobrir,
Tanta felicidade em te ver e sentir
Amor! Meu coração te quero dar.
Meco, 06-10-2010 23:44:58
(Registado no Ministério da Cultura
Inspeção-Geral das Atividades Culturais I.G.A.C.
Processo n.º 2079/09)

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