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Sonho amazônico
Por Renã Leite Pontes

No “mundo ideal” (que eu sonhei toda vida),
motivo precípuo das noites de insônia,
sonhei contemplando a filha querida,
meus netos nas matas de ar puro Amazônia.

E a Laura casando, na tarde zircônia,
com branco vestido, de face soerguida
(na beira do lago da nossa colônia),
olhando em meus olhos, feliz, comovida.

No coro cigarras, japins e a Gracinha.
cardápio: castanha, jaú com farinha
torrada, do tipo: comeu pediu mais!

Evento feliz nesta terra aprazível.
eu tremo em lembrar este sonho impossível...
sentados, num canto, sorriam meus pais. 




QUE É SOFRER?
Por Renã Leite Pontes

Nascer plebeu, na mesquinhez terrena.
ficar ao ir-se e, em corpo adolescente,
dormir no leito da famosa Helena
e não poder amá-la plenamente. 

Perder os sonhos todos, de repente,
pra ficar com alguém por sentir pena...
olhar nos olhos da divina Atena 
e ter a alma presa eternamente.

Tornar-se o frágil escravo de um sorriso,
qual anjo que fugiu do paraíso 
porque sonhou com o dia da viagem,

Quando amou a nudez de uma mulher,
“Solamente una vez”... também sofrer
é levar o passado na bagagem.




ELEGIA DA RAINHA DAS MATAS
Por Renã Leite Pontes


E choram bichos, índios, seringueiros,
Tão indefesos pelo nosso fim.

No mês da seca e da queimadura
Que fez sertão...
Amanhece na floresta fria.
Alegando vencimento do prazo de validade, 
Meu tronco é a pontaria
Do “correntão”.

Drenam-me a seiva e até meu retículo,
Para proveito de um grupo ridículo,
Matam-me a mim.

Cortam meu tronco, com brutalidade,
Caio
Sobre belezas de gigante intensidade.

Que comoção!

E esmago
Pau rosa 
Coco, veado, pau de dar em doido,
Cipó, louro, macaco, sangue de dragão,
Angico, pau mulato e açaí.

Alcanço até um cangati ovado
(Que morreria a falta de mim),
Fungo, aranha, cobra, madeireiro
E a seringueira que hoje aí há
Mas que cá já havia

Sustentando o braçal do unçí.




Índios Isolados no Acre
Por Renã Leite Pontes

Depois que foi buscar uma autorização,
Mais consolada,
A materna cunhã, de filho doente de morte no ombro,
Adentrou a capaná
De palha, de nó e de ângulo agudo e de pau amuado.

Num canto,
Divisou, sentado no chão, um velho vergado de anzol
E de pele enrugada e saudosa do sol.
Era um velho xamã, pura pele de índio, em cinza e pobreza.

Por nobreza,
Um cantil de cabaça com águas trazidas da margem de lá.
E uma harpa celeste, em aço cirúrgico:
Eis, em cena, a riqueza.

Chorou
A cunhã, mas baixinho, em lágrimas de silêncio,
Ante o ingente,
Que, sem nada dizer,
Viu, com olhos vitrais, o curumi doente.

De repente,
O ingente da cinza (e ao mesmo tempo indigente)
Verteu da garganta
(De unhas nas cordas da harpa)
Um som que imitava a serpente trepada no breu.

Foi quando,
O curumi sorriu para a vida e sarou
E com força pulou, para a mata,
Correu, bem disposto e contente.

Convivência
Por Renã Leite Pontes

Eu nunca vi o mar, mas ele é meu...
Conviver com a podridão do Igarapé Fundo,
Virou a coisa mais normal do mundo.
Conviver com a poluição do São Francisco
Que corre, de secar, um alto risco
Para riqueza de um grupo somítico.
Também é normal.
Todos convivem tranquilamente - há décadas e décadas - com as insustentáveis extrações das areias do Rio Acre.
Mas, ninguém consegue conviver com a crítica.
Deve ser por isto, também, que deram um jeito de calar as vozes dos libertadores.
É incrível:
Os sofrimentos de Olga atemorizam as jovens de hoje.
Posso avançar o sinal?
Não! Tá sem luz!


Renã Leite Pontes

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  01.02.2012