Matizes d’alma
Cruz das Almas/Bahia/Brasil
Reinadi Rodrigues Sampaio
No balanço dos corpos
Que se agitam no fogo da paixão,
Movidos por sentimentos incontidos,
Profundos, verdadeiros e fortes,
Somente interrompidos
Por uma tempestade tropical,
Que ao avançar, rodopia no infinito azul
E deságua no horizonte,
Em cores magníficas...
Matizando a alma...
Resultando dos corpos que se fundiram
Plenos de amor.
O amor, um dos mais belos sentimentos
Que o coração pode sentir,
Um corpo pode desejar,
Os braços podem abraçar,
E um beijo pode selar.
Mas, o amor, na sua simplicidade,
É algo tão complexo, tão inebriante,
Tão elegantemente desvairado,
Que na nossa mesquinhez,
Tememos... Receamos... Negamos muitas vezes...
Noutras, não o aceitamos
E, normalmente, o invejam quando a beleza
Une-se com a harmonia.
Nesse momento, amamos a arte
E o engenho de manter esses dois elementos juntos.
De nos abrirmos, nos afirmarmos...
Nesse momento, amamos
A coabitação de dois corpos num mesmo espaço,
Desejando-se intimamente,
Na forma translúcida de nos mostrarmos,
Provocando novas sensações
Novos estados de espírito,
A cada novo movimento do coração.
Como um animal na terra, uma ave no céu,
Um peixe na água, os elementos se completam,
A harmonia não se esgota
A vida fecha um ciclo e o amor fica eterno,
Irresistível, único entre dois seres,
Ilimitado na distância,
Intemporal na memória...
E nem todas as comparações com a natureza
Dimensionarão o esplendor que é o estado de graça,
De viver a amar
Ou a plenitude de viver a ser amada.

Carnavais da Alma (Um Certo Carnaval )
Reinadi Rodrigues Sampaio
Cruz das Almas/Bahia/Brasil
Fico sem palavras diante das realidades de uma existência
Nas “Fantasias", que um “corpo” se veste,
Enfeita-se, traveste-se... Nas roupagens incertas
No "tempo", que cada momento desperta,
Mas, que depois vem o “desgaste",
E as "cicatrizes" que deixando marcas
Por “uso” indevido das relações
Das palavras mal logradas,
Que em dias especiais
De palhaços nos vestimos
E em "cirurgias"... Tentamos camuflar,
As dores da “alma”...
Podem-se mudar as formas,
Mas, as cicatrizes da alma,
Não saberíamos quantos "carnavais”
Seriam necessários para apagá-las
Ou mesmo, que sabe... Que “fantasia” usar...
E pergunto-me: com que fantasia se veste a alma?
Com que pintura se ilumina?
Com que música se baila o paganismo da alma?
Herança de uma cultura enraizada
Na provocação dos sentidos
Na alucinação da alma que dirige os corpos,
Corpos escaldantes...
Corpos pagãos na mitologia do medo,
No vibrar do medo, do medo de que a alma falte,
Que o carnaval não aconteça
Que a magia se evapore
E a alma perca a sua cultura,
A sua individualidade.
O que seria uma alma sem alma
Quando tudo fica adverso?
Eis que emerge o carnaval e tudo se repõe,
Os astros se alinham
As vontades se fortificam. A alma arde...
E o corpo cumpre o ritual sem medo
Sem pudor... Extravasando alegria
E deixando a alma expectante,
Para o próximo carnaval
Porque se há alma... Há carnaval!

Como um raio de sol na alma!
Reinadi Rodrigues Sampaio
Cruz das Almas/Bahia/Brasil
No vislumbrar de um início de tarde solarengo
Ao sentir o prazer de uma brisa no rosto
A leveza dos cabelos se soltando
Numa corrente de ar refrescante
Tudo em harmonia com a natureza
Nada fazia prever...
A surpresa que o destino reservou
Daquelas coisas maradas... Que existem!
(inimaginável a um nível de loucura)...
Daqueles pensamentos que nos atormentam
Mas que sempre pensamos...
Quando o destino na sua forma inquestionável de brincar
Proporciona-nos situações perfeitamente avassaladoras
Reduz-nos em frações de segundos
À impotência de simples mortais
Esmaga-nos a moral e cilindra qualquer reação
Deixa simplesmente um valor residual
Um trauma...
Um hematoma...
Uma profunda lesão na vontade de viver
E fere no âmago a vontade de viver em sociedade
E por muito que nos questionemos... Por que,
Nada alivia a angústia...
A frustração...
A impotência...
A loucura... De um momento único...
Porque quando se fere uma alma...
As conseqüências são tão profundas...
E se refletem a cada momento como um fantasma
Seja no dobrar de uma esquina
No passear na praia
Numa paragem de auto-estrada
Ou no silêncio da maior intimidade de um sono...
Nada volta a ser o mesmo
Porque tudo foi alterado... Até na alma
Em nenhum momento alguma vez pensamos
Que o merecemos...
E a raiva se solta, contra quem também é uma vítima...
Nas suas mais variadas formas de demonstração
Não deixando essa lesão sarar
No isolamento...
Na desconfiança da própria sombra
Na fobia dessa situação se repetir
No fechar das portas para a vida
No fechar da vida à sociedade
Do porque o destino brincou com alguém
Que afetou outro alguém
E que numa cadeia de sucessões e evoluções
Veio afetar a mim
Porque o destino inquestionável e irresponsável,
Não nos atos, mas nas conseqüências,
Esqueceu-se que ao ferir uma alma...,
A deixa eternamente marcada
E o efeito de bola de neve na sociedade
Atravessam mundo em todas as direções
E infelizmente
Temos cada vez mais "bolas de neve" a percorrer o mundo
No fundo esta a é a realidade
Estamos a ser cada vez mais atropelados... Cilindrados...
Pelas bolas de neve da sociedade...
E o seu efeito...
Traumatiza-nos cada vez mais...
Cada vez mais intensamente
E cada vez mais profundamente...

Grito literário
Reinadi Rodrigues Sampaio
Cruz das Almas/Bahia/Brasil.
Meio assustador é às vezes,
Um grito literário
Tentando arrumar as águas
Num arremesso de fúria objetiva
Em que as palavras saem,
Como martelos esmagando o pendor
E a altivez, de quem fere sem medir
Ou sentir a insanidade das palavras
Que proferem contra nós: OS POETAS.
Nada mais falarei
Pois, o silêncio das palavras,
Que ecoam no trovejar,
De uma fúria silenciada
Rasgam as barragens
Que seguram à objetividade do pensamento
Que se deforma consumido pela raiva
E no âmago a vontade que perdura
É uma explosão silenciada de mil sóis...
E num desvario total de inconsciência,
Um grito sai na ponta de uma pena
E se estrutura num verso,
Com tinta de sangue fervente,
De um vermelho em fogo...
E antes que a angústia me tome,
Num verso que não sei o seu fim
As letras juntam-se, formam-se e dão corpo,
Aos gritos o que me vêem d’alma
Que ficam gravados no tempo...
E no espaço se materializam...
E a revolta silenciosa,
Forma um corpo mais duro que aço,
Mais resistente que uma eternidade,
Mais assustador que o mais profundo pesadelo
Que a inconsciência pode imaginar...
E as palavras se sucedem,
Em loucos espasmos de imaginação.
Espasmos de raiva contida
Porque a arte não é para quem a vê:
A arte é uma dádiva de quem a faz
Não quero saber se gostam, se a apreciam
O que mais pode importar num pensamento,
É a liberdade de o dizer
E nunca a mesquinhez de um comentário,
Porque, se um pensamento existe:
Um corpo vive
Uma alma cresce.
Se nem a fúria dos mares,
O mais profundo calabouço
Ou a mais cruel prisão psicológica,
Conseguiram calar a alma de um poeta,
Então, libertem a visão das muralhas,
Que vos assombram
E vivam o esplendor das palavras,
Uma das mais belas formas
De uma alma se expressar.

Evolução...
para meu neto Mateus Rodrigues Sampaio Costa
Reinadi Rodrigues Sampaio
Cruz das Almas/Bahia/Brasil
Evolução!
Como fica a sociedade diante desta palavra
Como se mexe a máquina evolutiva...
Se cruzarem duas palavras:
Evolução versus criança.
Até que ponto a sociedade aceita
A evolução de uma nova geração de crianças!?
Que novos medos... Ou medos antigos
Serão desenterrados com estas crianças?
O que dá que pensar!
Por serem crianças?
Por reduzirem a medianidade humana,
Com anos de existência?
Por estarem mais além, com poucos anos de vida?
Amigos ou inimigos?
Por terem uma hipersensibilidade
Associada a uma irreverência natural da idade!?
Em que se podem transformar!?
Ditadores prematuros!?
Que Nação aceitará uma criança/jovem/adolescente...
à frente dela,
Se o seu QI põe em causa as tabelas existentes?
Se, tem, "armas" que não dominamos?
E terão elas maturidade estrutural
Para suportar um "fardo desses"?
Se associarmos: curiosidade+juventude+sensibilidade+dom
Em níveis altíssimos, o que estaremos a criar?
“Loucos!” – diriam alguns “entendidos...”
Uma criança... Futuro homem... Mas nessa viagem,
Como controlamos essa evolução?
Com que olhos estaremos vendo esse SER,
Com que objetivos os estaremos educando,
Onde cabem no nosso futuro?
E no nosso presente?
Com todos os registros que já temos de crianças assim
Deixam de ser crianças, simplesmente,
Para serem crianças x ou y... “Loucos”...
Na mesquinhez da nossa forma concha de pensamento,
Seremos hipócritas de qualquer maneira...
Senão, vejamos:
Se refrearmos esse tipo...
Condicionamos seriamente o seu futuro
E a forma como ele explodirá.
Seremos hipócritas refreando!
Se libertarmos um espírito assim,
Sem qualquer barreira, seremos hipócritas
Dizendo que lhe demos toda a liberdade
Quando na verdade,
Não tivemos forma de segurar a explosão
Do pensamento dessa criança.
Entre estes dois extremos, hipocritamente
Seremos observadores frustrados
Correndo atrás de um futuro que não é nosso,
De um pensamento que não conseguimos perceber,
De um conhecimento que nos transcende,
De uma evolução da qual não fazemos parte.
Num arrufo de consciência hipocritamente dizemos
"Deus proteja essas crianças"
E horrorizados por pensamentos íntimos:
Pedimos:
“E a nós não desampare"!

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