Nasce um poema
Nita Ferreira
Nasce um poema de uma alma rasgada,
toda em dor pelo pranto da saudade
e as lágrimas, que correm sem piedade,
deixam a alma na alma ancorada.
Nasce um poema na alma a florescer,
nos cambiantes rubros da paixão,
mares de afeto, dileto, em combustão,
nas achas do amor a incandescer.
Tantos poemas nascem geniais
e belos que são do amor jograis,
no sentir, extasiados corações.
Imortais na melodia plangente,
eles vão ecoar eternamente
e ser para sempre as nossas canções.

Vestidos a rigor
Um vestido de cauda e lantejoulas
para a noite de sonhos e rubis
e uma tiara de anseios febris,
sobre os cabelos de madeixas louras.
Um fogo de diamantes no olhar,
um brilho esfusiante e sereno,
um prazer sem tamanho e um aceno,
um fraque elegante a acompanhar.
Muitas valsas cruzaram o salão,
e todas com o matiz da paixão,
espicaçando murmúrios em redor.
Mas eis que ecoa o som mais magistral,
para o tango mais belo e sensual
e ambos prontos, vestidos a rigor.
Nita Ferreira

Soneto da desinspiração
Está minha alma assim como o papel
da folha onde o poema teima em nascer.
Entre instantes de seda e de burel,
minha pena enrola-se ao escrever.
Nem uma só palavra tinge o branco,
pois que todas ficam presas no grito
que voa, ansioso, pelo flanco
alado de um poema não escrito.
É minha inspiração em queixume
ou meu amor demais perdido em lume?
Em mim, eis tal estranheza sem resposta.
No peito nasce-me um verso e soçobra
e a pena, por diabólica manobra,
de novo à desinspiração se encosta.
Nita Ferreira

Ontem, hoje, amanhã...
Uma bússula está riscada no chão.
É por onde a par e par caminham passos
e em pedaços e pedaços, qual condão,
corações se enredam em fortes laços.
Mora hoje um ontem nesse amanhã
que volteia as areias da ampulheta.
Ainda há pouco era noite e é já manhã
a refulgir na cauda de um cometa.
Este que é o mais sublime dos enredos,
transforma as angústias em folguedos,
nesse delírio infantil e louco.
Graças, pois quem mais ama é mais feliz.
Ontem, hoje e amanhã cresce a raíz
do amor que floresce e sabe a pouco.
Nita Ferreira

Caminhando
Caminhando nas pedras, distraída,
os olhos no horizonte pousados,
no silêncio, o ventaval da vida
bafeja-lhe os ombros destapados.
Cabelos despenteados ao vento,
que ora lhe sopra frio ora calor,
na face nostalgia sem lamento,
sequer dos seixos que lhe causam dor.
Equivoco, nunca arrependimento,
antes lição de luz p'ro andamento,
na subida a um outro patamar.
Cada dia um presente, uma oração,
um hino agradecido e o coração,
enamorado ao brilho do luar.
Nita Ferreira

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