Transgressão.
Nilda Dias Tavares
Minha vida foi pautada
Pela moral e bons costumes.
Vivi tampo tempo, engessada,
Sem demonstrar meus queixumes.
Cheguei aos sessenta anos
Sem mostrar as sensações
De mágoas, de desenganos,
Sem demonstrar emoções.
E acordei um belo dia
Sentindo a suprema alegria
De ver-me sem meus grilhões.
E descobri a poesia!
Quero viver essa magia...
Rabiscar os meus cadernos,
Mandar tudo pro inferno!
Vou ter novas reações,
Finalmente libertar-me,
Vou viver de transgressões.
Vou quebrar todas as regras,
E se alguém me criticar,
Eu lhe direi simplesmente:
-Estou livre!Vou amar!
Vou viver intensamente
O que a vida puder me dar.
E num sonho encantador
Quero fazer do meu mundo
Um poema de amor.

Hoje.
Nilda Dias Tavares
Hoje eu acordei com a decisão
De mudar pra sempre a minha vida.
Deixar de lado utopias não vividas
E encarar de vez a sensação
De fracasso, por uma vida mal vivida,
Escondida sob a máscara da ilusão.
Hoje decidi tudo mudar...
Apagar o verniz da minha vida,
Retirar a cicatriz desta ferida,
Trocar de pele, me reinventar.
Sentir-me totalmente redimida
De uma vida onde só fiz dissimular.
Hoje eu acordei com um novo sonho...
Quero um porvir lindo e risonho
Que perdoe o meu orgulho e arrogância.
Tantas mágoas caladas, tanta dor...
Hoje eu quero encontrar um novo amor.
Quero o sonho, quero o riso e a elegância.

À procura de mim.
Nilda Dias Tavares
Minha face, em que espelho andará?
Onde o brilho dos meus olhos se escondeu?
O meu sorriso em que boca estará?
Onde está a mulher que já fui eu?
Não me encontro ao procurar por mim.
Sigo meus passos, sem conseguir me achar.
Não sou nada nem ninguém e mesmo assim,
Não desisto de um dia me encontrar.
O tempo é um misterioso ladrão
Que corrompe as nossas esperanças.
Um bandoleiro que nos fere o coração
E apaga todas as boas lembranças.
Caminhei por tantos atalhos, precipícios.
Procuro meu reflexo, onde foi que se escondeu?
No espelho, este semblante tão propício
A exibir uma estranha que não sou eu!

Estranhos.
Nilda Dias Tavares
E então...
Deixamos secar o coração.
Faltou irrigar nossos momentos
Com a leveza da emoção:
Um abraço apertado...
Um beijo desinteressado...
Um elogio inesperado...
Um simples afago...
Uma flor...
Gestos indispensáveis ao plantio do amor.
Tristemente o coração definha
Invadido pelas ervas daninhas
Da rotina, da mesmice e da solidão.
E então...
Encontramo-nos inertes,
Sentados frente a frente,
Como dois estranhos...
Dois idiomas diferentes.
E o silêncio é tão intenso, tão pesado,
Que sem pedir licença,
Vem sentar-se indiferente ao nosso lado.
E seguimos assim, em tediante rotina,
Como se fora destino, carma ou sina.
Sem coragem sequer para mudar:
“Jogar tudo pro alto”...
E recomeçar.

Meu avesso.
Nilda Dias Tavares
Do meu coração vou tirar o gesso
Vou virar meus sentimentos pelo avesso
E resolver da vida meus enigmas.
Vou jogar fora rancores dantescos,
Livrar-me de ódios tão grotescos,
Apagar da minha alma tantos estigmas.
Quero revirar minha alma às avessas
Quero fazer a mim mesma, novas promessas,
Refazer os meus sonhos e prioridades.
Com a delicadeza das porcelanas,
Rimas de finíssimas filigranas,
Nascerão afastando as malignidades.
Vou acabar de vez com este martírio,
Quero da vida um novo colírio
Que me faça ver uma vida diferente.
Quero saudar o sol com um bom dia,
Quero da vida somente alegria
Quero a pureza de uma adolescente.

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