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 Deixa Chover...
Marise Ribeiro

Árida alma onde só nascem espinhos,
Onde não há aragens de ternura,
Coração enraizado na amargura,
Como pensas florir teus descaminhos?

Se rancores cavaram desalinhos,
Preparando tua própria sepultura,
Deixa-te aguar em lágrimas de cura
E irriga com dulçor teus escaninhos...

Procura novo oásis no frescor
Das ramas que verdejem puro amor,
Para adubar o Bem no estéril solo...

E do remorso brotará perdão
De quem ao te plantar tanta afeição,
Colhe apenas deserto do teu colo...

10/03/09




Tempo No Amor
Marise Ribeiro

De um amor único ando sempre à espera,
Que seja manifesto e não virtual,
Retrato de um querer com tom real,
Amor sem a feição de uma quimera.

Mas não aceito o tipo vendaval
Que ao cessar deixa n’alma uma cratera,
Nem o de intenso azul de primavera
Que se dissipa após afã carnal.

Neste mundo de afetos passageiros,
De corações cruéis e aventureiros,
Amor eterno?... Não há mais quem jure!

E se tempo no amor não é uma meta,
O importante, assim já diz o Poeta,
É “que seja infinito enquanto dure”!

18/09/08




Minhas Estações
Marise Ribeiro

Tempo de angústias traz um vento frio
E exaure do alicerce o seu vigor,
Mas o pranto, tenaz renovador,
Liberta a estéril alma de outro estio...

Foi-se o momento exato ao replantio
Neste coração sempre desertor...
Invernado ao convívio de um amor,
Uma vez mais do pólen não viu o cio.

As estações amargas vão sem flores...
Na brisa, voos sós e sem olores,
Porque nada vingou no meu jardim...

No outono deste tronco em tal desleixo,
Pelos caminhos, folhas mortas deixo:
As mudas dores... que caem de mim!

16/06/08




Lírica Humildade
Marise Ribeiro

Hoje o sol demorou para acordar...
Entre brumas, rendeu-se ao prateado
Da lua; brilho ainda projetado
No céu que ele não vinha iluminar.

Ontem, ao vê-la plena se achegar
E lhe dar seu olhar alaranjado,
Recolheu-se, feliz e enamorado:
- A argêntea soberana vem reinar!

O reinado tornou-se deslumbrante,
Num trono cravejado a diamante,
Sublime criação das mãos de Deus...

Súdito ante a notável majestade,
O sol, astro-rei em lírica humildade,
Deixou a lua atrasar seu belo adeus!




Amanhecer de 17/06/08
Identidade

Marise Ribeiro

Há versos em que pranteio,
Em outros me exponho rindo...
A dor, às vezes, margeio
Ou cultivo-a bem no seio,
Até me ver sucumbindo.

Permito que o sentimento
Se esconda numa tragédia,
Mas no circo do momento,
Preparo a lona do alento
E a vida sirvo em comédia.

Pinto bucólicas cenas,
Floresço em áridas terras,
Enquanto mães às centenas,
Durante tristes novenas,
Rogam pelo fim das guerras.

Encerro em mim tantas crenças
E as consagro em devoção,
Mas também indiferenças
Ao compor cruéis sentenças,
Quando rejeito a traição.

Acolho o amor imperfeito,
Zombo do azar e da sorte...
Com a lira me deleito,
Faço festa no meu peito
E até dou graças à morte.

E, se levanto bandeiras,
Rasgo toda a fantasia...
Uso a cor sem brincadeiras,
Mostro tintas verdadeiras
E ao verbo deito energia.

Traço letras em quintilhas,
Com métricas e com rimas...
Neste mar de redondilhas,
Navego ganhando milhas:
Serão elas obras-primas?

Meu presente, rico império,
Bendigo-o com humildade
E o conduzo muito a sério...
E esta alma, doce mistério,
Será a minha identidade?

Nesta vida sou uma esteta
E a poesia é diretriz,
Mas não me nomeio poeta...
Minha pena aqui decreta:
Sou nada mais que aprendiz!

07/07/08

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  30.01.2012