MEMÓRIAS
Maria Vitoria Afonso
Enquanto nas ruas de Óbidos
Florescem as rosas vermelhas
Em rubras explosões de cor
A onda no alto mar, esparsa evolui.
Nos plainos alentejanos,
Os horizontes a perder de vista…
As azinheiras a esmo…
Seduzem-te.
Muito longe, há um farol
Velho testemunho de ignotos escaleres
Ao mar lançados por ignavos
Marinheiros.
Num certo dia memorável
Algures, um pescador se entretém…
Dos teus quadros faço um puzzle
E construo um imaginário
Dos tempos idos…
E revejo-te metaforicamente
Como Marcel Proust
« A LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU»

ILHA MISTERIOSA
(ilha doPessegueiro)
Maria Vitoria Afonso
Aquela ilha de aspecto naviforme
Rodeada de azul e branca cor
Lá onde um sonho ambíguo nosso dorme
Dela só diria: testemunha do amor
À sua vista o meu regozijo é enorme
Seu aspecto é majestoso e multicolor
Longe dela, é a tristeza desconforme
Esvai-se a vida entre o tédio e o torpor
Na tua frente bela ilha, está a praia
De fina areia e branca espuma franjada
Que é para ti como rodada saia
Agonizam as tardes, anseio que a noite caia
E na senda da maré enluarada
Deleita-me a beleza extrema que se espraia.

CONSOLAÇÃO
Maria Vitória Afonso
Mês de Agosto, cá estás de novo
A encher minha vida de carências
Queria um G.P.S. para demandar afectos
Alguém com sentimento mo proporcionou.
Rumámos ao cerne da ternura;
CONSOLAÇÃO
Estava quente o coração de Portugal
E é mentira o que dizem dos”Amigos de Peniche”
O mar bem azul afaga o ego das pessoas
CONSOLAÇÃO:
Tens a magia de uma praia para enfermos
Não barrei meu corpo de argila
Mas enchi minha alma de espiritualidade
.CONSOLAÇÃO
Comendo caldeirada no restaurante à beira mar, que era a surpresa,
Onde o safio
Pedia meças ao safio do nosso mar do sul
CONSOLAÇÃO
Confortaste minha alma das mazelas e do vazio.
(O velhote – contaram - curou-se e deixou as muletas na praia do reumático)
CONSOLAÇÃO
Eu deixei resquícios de tédio em que agonizava
CONSOLAÇÃO:
Consolaste-me, consoladamente.
Não há amigos de Peniche.

Adolescente
Maria Vitória Afonso
Na heróica planície aquele grito
Com o qual mitigava a rebeldia
Criava asas, seu coração hirto
Para se rebelar de noite e dia
Amor proibido ela esmaecia
Qual envelhecido ramo de mirto
O velho sonho virou fantasia
Perdera-se ,tal desusado rito
Nascido entre a vila e o montado
Logo de início fora recalcado
Aquele amor degenerou paixão
Proibido estar tão apaixonado
Cobarde o seu amor foi exumado
Ficou só a frieza da razão.

Diz-me
Maria Vitória Afonso
Diz-me
Se o meu rosto,
De tantas madrugadas
Acumuladas
Denota algum
Gosto pela Vida.
Diz-me:
Se minha alma
Exibe a força anímica
Que lhe conheceste outrora.
Diz-me:
Se é notório ainda
O amor pelos cães
A quem chamei irmãos
Como S. Francisco.
Diz-me
Se é possível
Arder ainda o fogo do amor
Ou restam apenas cinzas
Exumadas pelo tempo
Vasto e inútil.
Diz-me:
Se morro aos poucos
De tédio
Ou se ainda me darás
A tua mão.
Digo-te
Talvez ainda acredite
Incoerentemente
Em tudo o que acabei de descrer.

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