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Segredos da Minha Lisboa
Maria João Brito de Sousa


Sou do Tejo no abraço em que Lisboa
Se dá ao mar e, desse mar, reclama
Esse amplexo ideal, que não magoa,
Que nasce do poema quando a chama

Virei dessa atracção sem raciocínio 
Com que ela seduziu um mar vadio
E nascerei, também, do seu fascínio
Sempre que a canto à noite, à beira rio…

Esta minha cidade é como eu sou,
Tem a mesma magia em que me dou
Nos versos que lhe escrevo em cada dia…

Mistérios não se devem desvendar
Mas sei que a cada abraço do seu mar
Reinventa o mesmo amor que a principia…

Maria João Brito de Sousa – 10.07.2011 – 19.22h




É daqui que te escrevo


É daqui que te escrevo,
desta vontade que me veste de Abril, 
de poemas e de farrapos também,

Daqui,
de onde me reconheço em ti espelhada
embora o perfil simples do meu cravo
sem nome, sem espinhos
e tão menos glorioso,
pareça negar cada verso que nasce…

Mas é daqui,
deste lado aguerrido de mim
onde vestida de um Abril em farrapos,
não dispo Abril apesar dos farrapos,
desta resistência que te não sei explicar
mas, presumo,
ninguém imaginaria que florescesse ainda… 

Daqui, 
de onde também eu
aprendi a amar a solidão
e a recriar o mundo 
na sombra das ausências,
nos anos – tantos… - do verde caule
de um mesmo sonho de pétalas ao rubro,

Daqui 
e porque o poema me apeteceu, 
insurrecto e vermelho, 
este escrever-te sem rima, nem medo,
com as armas florindo num canto menor.


Maria João Brito de Sousa – 19.06.2011 – 16.31h



MINHA TERRA


Quem te estendeu, minha terra,
Sobre algas, areia e mar
Como quem chega e descerra
Reposteiros de luar?

Quem te polvilhou desse ouro
Das searas nas planuras
Como se fosses tesouro
Que tombasse das alturas?

Quem te desenhou assim,
De um traço firme e seguro,
Florida como um jardim
Sob um céu de azul tão puro?

Nas praias, rios e montanhas
Que, mesmo pequena, abraças,
Sorriste à graça tamanha
De abraçar todas as raças

Quem te estendeu, terra minha,
Sobre algas, mar e areia,
Tanto trigo e tanta vinha
Nos braços de cada aldeia?

Quem de ouro te polvilhou
As planuras do regaço
Quando o sol te iluminou
Desde as lonjuras do espaço?

Nas aldeias, nas cidades
Que de ti foram nascendo
Desabrocham as vontades
Cansadas de ir-se escondendo

E, quando a fome chegar
Quando os seus braços se erguerem,
Quando a voz se lhes soltar
Para exigir quanto querem

Da minha terra dourada,
Toda rios, toda montanhas,
Virão vozes revoltadas
De gentes brancas, castanhas,

De gentes de tantas cores
Como as flores da minha terra
De novo empunhando as flores
Como os soldados na guerra!

Ó minha terra-promessa
Da pressa que trago em mim,
Não há poder que me impeça
De cantar-te até ao fim!



Maria João Brito de Sousa – 16.08.2011 – 13.45h



Fala-lhes de Nós


Fala das coisas que eu não sei esquecer
Se, mais do que eu, souberes falar de mim;
Fala da casa velha e do jardim
Onde eu plantei a alma e quis crescer…

Fala de mim, menina, a querer saber
Dos anseios do pé do meu jasmim,
A perguntar-me sempre, até ao fim,
Se ele saberia, ou não, compreender…

Da gata adormecida aos pés da cama,
Do velho avô, vestindo o seu pijama,
A “poetar” até de madrugada,

Da avó que vinha ver se eu já dormia
- sem nunca adivinhar que só fingia -,
Se, pr`ouvi-lo melhor, estava acordada…


Maria João Brito de Sousa – 15.05.2011 – 15.48h



A Amada filha do Mar


Eu sei que tenho manhas e manias
Pois tento ser aquilo que Deus quis
Mas juro que é assim que sou feliz,
Fazendo, certamente, o que devia…

Se a metáfora surge… é por magia!
Não sei explicar, de todo, o que ela diz,
Mas diga o que disser, sei bem que fiz
Exactamente aquilo que ela queria…

Nas manhãs em que, ouvindo a voz do mar,
Me sinto tão mais viva e tão mais eu,
É dentro do meu mar que encontro o céu

Posso ser só um fado por cantar
Mas sei que cada vez serei mais “ilha”
Enquanto ele me chamar de “amada filha”…

Maria João Brito de Sousa – 10.07.2011 – 20.27h

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  01.02.2012