Revés
Maria Antônia Canavezi Scarpa
Enquanto a vida vai se esvaindo,
a sensação do vazio aumenta,
de repente, o espaço parece ser imenso
tudo terá que ser revisto,
vou sorvendo as angústias pelas beiradas,
por já estarem ficando mais frias.
Transformei os meus braços em ramos,
pendentes e verdes ao sabor dos ventos,
com suas vicissitudes à cada estação,
há um elo se atrelando ao destino
sinto estas evoluções, é hora de conter
a ascensão plena da alma.
Mas a desventura se inicia em meu tronco,
lutando para nutrir-se da seiva que míngua,
na medida que envelhece friamente
desnudando sua casca, matando seus nós
e expondo a sua verve fria
A arte é replantar...brotar vida em cada galho
ser um esteio absorvendo uma história,
tendo como regra, até onde posso crescer;
seria imoral,cortar as folhas
mesmo sendo elas as palavras,
e os meus pensamentos invulgares.
Não quero passar a imagem
de arrogante desdenhando novos brotos,
almejo mais tempo para explorar
a imensidão de veios em meu caule interior
revestir minha vida com viço,
dar um revés total nos ciclos...

Minha âncora...
Maria Antônia Canavezi Scarpa
Não quero jogar minha âncora aqui...
aprender tudo sozinha, não tem sido fácil
posso naufragar a qualquer momento,
estou à deriva e me afogando
na minha caudalosa piedade.
Foi procurando guardar virtudes,
que embarquei rumo ao meu destino,
deixando minhas feridas abertas
sentindo-as serem cutucadas,
e não parem nunca de sangrar.
Não consigo entender, o porque de ser
anfitriã dos deuses em seus cultos,
quando existem segredos sombrios,
que poderão ser revelados,
se não há tempo para exorcizá-los?
Todos os demônios estão soltos
e não saberei explicar nada
sobre a morte da minha falsa inocência...
moldei a máscara, ela é muito antiga
sinto-a alinhada ao meu rosto,
tomou as formas do meu perfil.
Sigo procurando insensatamente,
o núcleo humano... acertar o alvo,
recuar em tempo, sem perder a razão,
resgatando o que resta de dignidade
dentro da minha pequenez.

Vazia de mim
Maria Antônia Canavezi Scarpa
Posso na minha solidão experimentar,
um pouco de tudo, que minha alma recolhe,
permitindo que os meus lamentos sejam sábios,
não recriminando as lágrimas que correm,
para este ou aquele ser que rodeio silenciosa.
Posso me aquietar, respirar compassadamente,
sem acordar a ousada nirvana que me extingui,
deixando-me envolver lentamente por um leque inquieto,
por trás dele omitir as minhas digitais explosivas,
ainda que estejam todas as minhas janelas abertas.
Posso disfarçar meu olhar itinerante e na escuridão
ir descobrindo o caminho de casa, num piscar de olhos
e inteiramente senhora de mim ,ou na quietude solene
admitir que posso ignorar o meu ego
e ser quase nada, vazia de medos ou anseios.
Posso disfarçar nas cores das minhas roupas,
o desapego e a liberdade para qualquer problema,
meu interior valsa ao som da alegria sem vida,
sem interferir, nas duas metades que me compõem
real e imaginária...
Posso desintegrar com um sopro, verdades
e mentiras, até deixar que se tornem leves
sejam levadas pelos ventos à qualquer direção,
sendo a conciliadora dos meus mandamentos,
pois vazia de mim, não sofro punições.

Faltam poucos dias...
Maria Antônia Canavezi Scarpa
Faltam poucos dias...
e nada pôde ser explicado,
as intempéries não nos avisam
quando virão destruir tudo,
apenas ficou registrado na folhinha
em algum lugar...do passado
cada momento vivido.
A dor consome-nos sem respostas,
e os dias deixam que suas horas
estranhem-se com os ventos...
algo precioso foge para correr
junto as águas de um córrego mágico...
Foi em um inverno ameno,
vestido de frio, que o amor chegou,
tomou um café comigo,
prometendo que quando voltasse
já estaríamos na primavera.
Hoje no ar ,restam algumas gotas serenas
levemente temperadas de saudades,
sabendo que ao caírem, irão borrar caminhos
por onde deixamos espalhadas
partes das nossas entranhas.

Lascívia
Maria Antônia Canavezi Scarpa
Por cortesia ou gratidão, não sei!
eis me aqui, diante da sua presença ácida,
poderia ser fácil debruçar sobre seu corpo
para um amor breve e ligeiro,
acordei o medo, mas não posso despertar o vício
ao saborear seu mel ou seu favo inteiro
O fel é acre, pode amarrar minha boca,
quando beijar seus lábios ávidos,
quem sabe até afaste suas mãos ágeis
se apertar meu corpo, sua sagacidade me assusta,
apenas sei que desejo sorver você
digerindo-o como um licor afrodisíaco
Idealizei-o viçoso, misteriosamente devasso
invadindo meus sonhos e minha cobiça,
tocar sua pele, lamber sua saliva,
roçar seus pelos numa volúpia transparente,
exalar nos seus e nos meus poros
loucuras extremas e sensuais
Eis você aqui, escorregando seu olhar lascivo
despertando meu apetite voraz,
percebeu que tenho fome da sua paixão,
não o quero desvanecendo e brejeiro,
quero-o completo, amargo ou doce,
mas despudoradamente inteiro...

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