Absinto...
Marcos Milhazes
Quando a paixão caminha no adverso
Talvez a estrofe distraída possa mostrar o verso
Abstrato da vida da existência
e de suas verdades intocadas e contidas.
Temer-se o entrever
Segredos da cega visão!
Lobrigar sentimentos, nem pensar!
Não quero e nem gosto dessa forma de gostar
Presságio sentido e vislumbrado
Sagaz admissão vazia de um amor perecido
Difícil de ser esquecido
O que fazer desse tema repetido?
Apenas um simplório lamentar!
Sempre serão os caminhos estreitos e estranhos de um pesar.
Restando-me apenas sentar numa mesa de sentimentos
Degustar esse terrível sofrimento.
Aquele degustado outrora com ternura.
Beber agora com gosto de absinto,
minhas mágoas de dor e amargura e sem temor.
Tentar curtir com dignidade nesse momento, essa dose de licor...

Em Versos
Marcos Milhazes***
Raras libélulas faceiras.
Trejeitos e truques de ocultar-se em casulos
Das suas aladas asas prometidas em fases espargidas.
De secretas cores tingidas.
Tange e pinta aquele véu de seda,
Registrada em certidão de hieróglifos
Renascidas de outra
Como a pérola e a ostra
Da pálida luz prateada
A lua vadia no céu jazia
Oculta atrás das nuvens, deveras só por instantes
Como a estante lotadas de livros, jamais lidos
Como músicas clássicas, quase nunca apreciadas.
Porém todos falam em forma de letras versadas
Saudades reclusas e dons esquecidos
Chamados de versos, estrofes, citação ou poemas
Por Deus, me entendas!
E eu prestes ao vazio da mente
Vou ser jubilado da hierarquia lírica,
Por favor, me lavras.
Antes que me faltem em versos minhas palavras...

A Luz
Marcos Milhazes***
Sei que é raro
Mas!!!
Se eu encontrar
uma mulher iluminada
Saberei em seu silêncio
o que ela diz.
Seu sorriso cande ará
meu caminho
E seu gesto do acaso de amor
fácil será compreender.
Dar continuidade
é sabedoria.
Dar manutenção
será concebê-lo.
E que assim seja
Será como o beijo
Um toque terno de carinho
Que dispensa qualquer palavra
Só então poderei
confessar ao mundo.
Que a luz que pretendo
alcançar com ela
Será tão divina e pura
Que somente seu coração
poderá acendê-la.
Iluminando assim
minha vida
Meus erros e valores
Minha existência
e meu espirito
Meu olhar eternamente de você
Tornando-me apenas
uma claridade
Que deveras!
Virá do seu intenso brilho...

Samba
Marcos Milhazes***
Silêncio
Minha amada está dormindo
Ela só acorda
Pelo acorde do meu violão
Amanhece em samba lento
O pandeiro devagarinho
O surdo, se fazendo de surdo
O tamborim na batida da pirraça
Acho até graça,
como uma cachaça
Ela se levanta na preguiça
Me pega, me atiça
E lá vai ela
pela rua abaixo
Há vida lá em baixo,
diz o baixo
De olho naquele violão que anda
e desanda, aos olhos dos passantes
Findo o dia da labuta
aquela mulher batuta,
escuta
na birosca vesga do tempo
aquele acorde, que a sacode
em samba lento, sempre atento
para fazer-lhe alento,
E na caída do sereno
Toco um samba na batida
só para vê-la metida,
caída num compasso,
Vestido suado de samba
A transparência é apreciada,
que danada
Não tem nada,
mas branquinha está amarrada
E daqui a pouco será amada
lá na nossa toca,
casa de bamba
E com certeza acabará em ritmo de samba
De leve,
é claro
como a cor dela,
Singela...

A Meia Luz...
Marcos Milhazes***
És uma parreira que sem saber seca
para logo procriar as uvas brilhosas
e que por sua vez
pari vinhos estonteantes ao entardecer
És o exótico que sem saber que virá e vira
a exuberância rara do raro de um candeeiro rudimentar
És o tom que sem ter conhecimento,
dá meia claridade a cor do anoitecer
Das corredeiras aflitas, sem saber és a força
d'água que carrega o meu destino
És de fato meu ato que atoa
se despiu da humildade
para declarar-se seu ao pôr do Sol
Do arcanjo ao anjo me viste assim, sem saber
das heresias profanas que se misturavam as minhas orações
feitas em pensamentos junto ao brando lume da vela
quando rezava por ti
És mulher, que sem saber virou
a silhueta de menina refletida na memória
que estava amando um homem
e que não mais a penumbra pode esconder...

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