O Coração...
Laerte Antonio
O coração é um cara adultescente.
Trate bem dele, minha amiga, tenha
paciência com ele, a sua senha
é sempre o amor: o afeto delinquente...
O coração é um cara bem carente,
não importa o diploma que detenha
com o Ph.D. em que se embrenha —
o que ele quer é ser gente com gente.
Cuide bem dele, saiba sempre ouvi-lo
do avesso do que sente... redimi-lo
das mil adolescências, e o conforte.
Conforte-o, e terá o passaporte
para um lugar de sonhos e alegria —
além de sua jovem companhia.
LA 08/011

Poucos Minutos Para..
Laerte Antonio.
O outro, minha amiga, até existe,
nós é que quase sempre não o vemos,
a não ser bem de lado, em nosso chiste,
ou em nefastas situações de extremos.
Medo gerando angústia: um sujo triste
pesando no ar em depressões sem remos...
A deusa economia em que consiste
o Sistema do temos e não temos.
Daí esse diálogo com bombas
e a voraz ambição — que tudo abarca —
de mamíferos-deus erguendo as trombas...
O pobre geme sob o rico açoite.
E o relógio do mundo sempre marca
poucos minutos para a meia-noite.
LA 08/011

Eis-Me A Gozar...
Laerte Antonio
Eis-me a gozar minha terceira infância —
dessa de que se é o pai e se é o avô.
A vida bem mais leve, menos ânsia,
o medo a transformar-se num robô,
robô a fazer rir sem petulância...
Esperar não é mais um ioiô...
Não dormir não é mais extravagância...
A vida vai ficando rabicó...
E a gente vai fazendo uma peteca...
pra jogar à janela de Teresa
que deixou vago o seu lugar na mesa.
Sim, a terceira infância é uma moleca
que já aprendeu que o mundo é um cachorro
e a vida... um Saci que perdeu o seu gorro.
LA 08/011

Conversa Boa, Nega...
Laerte Antonio
Conversa boa, nega, é feita fiado,
você destrava a língua e vai rolando —
cosendo e descosendo, ao jeito brando,
sim: por cima, por baixo e bem de lado.
Conversa boa, nega, é bem trocado —
um fio de nós dentro se desfiando
e achando um outro fio já fiando
e se trançando num sentido achado...
Conversa boa, nega, é dom afim,
vai engolindo toda a madrugada,
dá volta ao mundo e não se cansa nada.
Conversa boa, nega, não tem fim,
parece que acabou, mas não acaba —
assim como chupar jabuticaba.
LA 02/011

O Perfume Dourado...
Laerte Antonio
O perfume dourado do junquilho
muda o cenário: faz lembrar você
num jeito de violino em estribilho
em que ouvir se harmoniza ao que se vê.
A brisa pelas folhas é um bisbilho
lembrando sua voz em cafuné —
seu jeito de dizer em tom e brilho
mostrando que o que foi tem seu axé.
Suas passadas claras, apressadas,
a cantar pela área, ritmadas
pelo andar de sandálias que bordavam...
Bons tempos, belas aves que voaram...
Mas lá por entre os ramos da memória,
tudo isso é vivo numa longa história.
LA 02/011

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