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CÂNTICO
DAS VIRTUDES PERDIDAS
José Carlos da Silva Primaz


Lá em cima, na montanha entre o gelo, eu guardei,
As virtudes, cá em baixo espezinhadas... que ainda encontrei,
Para bem longe, desta velha geração, lá ficarem guardadas...
E assim, quando o frio da longa noite, da terra tiver sumido,
E o gelo lá de cima, em água pura, p’rás gentes tiver descido,
Ela trazer de lá as virtudes... nessas águas misturadas.


Pois da forma como este mundo, já está por cá ficando,
Em que dia a dia, com as virtudes, a sociedade está brincando,
Só pensando na riqueza, e na plena ostentação, para viver...
Certo é então, que bem cedo... elas irão mesmo terminar,
Mas quando o mal, neste mundo, já então cá não morar,
Que venha o sol para os gelos derreter... e as virtudes trazer.


E com elas, que venham os cânticos dum novo dia a nascer,
E que os gritos alegres da criançada, façam a terra estremecer,
Para todos sentirem o amor... que eu já então não sentirei...
E quando das fontes da montanha de novo a água pura brotar,
Que as crianças do futuro, possam a sua sede saciar,
E o coração purificar com as virtudes... que um dia lá guardei.



Publicado no Livro a Solo “O Outro Lado da Minha Alma”






OLHO NA PALMA DAS MÃOS
OS SULCOS DA MINHA VIDA
José Carlos da Silva Primaz


Olho a palma das minhas mãos, cheias de sulcos compridos,
Com outros até mais profundos... mas um pouco já esbatidos,
Como se cada um deles quisesse, algo da vida mostrar...
Pois dizem os adivinhos, que nas mãos conseguem ler,
E se forem bem estudadas, até o próprio futuro saber,
Mas a verdade... é que o meu futuro, eu nunca quis estudar.


Hoje, com a idade, duma outra forma estou olhando,
Pois sinto o final da vida, já de mim se aproximando,
E não sei, mas olho p’ra este sinal... com uma outra visão...
Porque não me lembro se ele, na linha da vida, já cá estava,
O que me levaria a pensar, que a vida, era ali que terminava,
E eu já não teria muito tempo... nem tão pouco salvação.


Por isso, e como hoje sinto o fim da vida se aproximando,
P’rá linha da vida, duma outra forma curiosa, fico olhando,
E não sei se o sinal quer dizer que é ali que a vida vai acabar...
Mas se for, sinceramente que isso não me causa preocupação,
Porque aquele sinal na linha, poderá ser uma interrupção,
Só que logo recomeça e me diz... que a vida vai continuar.





DIGAM-ME…
DIGAM-ME APENAS

José Carlos da Silva Primaz


Deixei que a noite, bem cedo, me encontrasse,
E que o seu manto escuro e triste, logo me tapasse,
Para os meus olhos, das coisas do dia, não ficarem vendo...
... Tantos velhos pelas ruas, e vãos de escada, dormindo,
... Tantas crianças, com fome, pelas esquinas pedindo,
... Tantas mulheres ultrajadas e abandonadas... sofrendo.


Mas há por ai quem diga, que sou mais um poeta da tristeza,
E eu apenas pergunto se sabem, por onde é que anda a beleza,
Que ma mostrem... porque o dia não ma quer deixar já ver...
Digam-me apenas... para eu saber onde ela estará,
Ou então, qual o lugar por onde é que ela andará,
Que eu irei vê-la, logo a correr, e sobre ela... escrever.


Onde estão, não os velhos, mas os anciãos e os netos, brincando,
Os bonitos jardins cheios de crianças, correndo e saltando,
As mulheres e esposas... e as mães felizes os bebés amamentar...
Digam-me apenas... onde é que isso eu ainda posso ver,
Para dos poemas tirar a tristeza, e sobre a beleza escrever,
E assim o manto da noite, de cima de mim, eu poder tirar.

Digam-me...
Digam-me apenas... onde é que a beleza pode estar morando...
Digam-me apenas... para com ela, deixar de só ficar sonhando.





SILVES
A CIDADE QUE FOI... E É!
José Carlos da Silva Primaz


Tantas... mas tantas foram as almas que comigo se cruzaram,
Naquelas ruas estreitas, por onde outras almas já andaram,
A ponto do meu coração perguntar, para onde é que terão ido...?
São ruas, que a história, muitas histórias tem para contar,
Desde aquele tempo em que el-rei a foi lá conquistar,
Aos povos que lá viviam... e que lá morreram, ou terão partido.


Elas já são almas do passado, que ao passado estão pertencendo,
E se noutros planos se encontram... eu tal não estou sabendo,
Apesar de tudo me dizer, que a vida tem continuação...
E hoje todas estas almas que junto de mim andaram,
Algumas não as verei mais, porque para outro lado já passaram,
E de novo ficam dúvidas... e mais dúvidas, neste velho coração.


Eu sei que dentro de algum tempo a minha alma irá partir,
E até talvez eu já tenha um sitio destinado para ir,
Ou talvez não... e eu, como as outras, não venha mais a existir...
Mas então Senhor, porque os teus Mensageiros de Ti falaram...?
Pois se as nossas vidas, quando o corpo morre... terminaram,
Então, porque Eles por Ti morreram, se outra vida não vai vir...?


Hoje tudo está em festa, para desses tempos se recordarem,
Em que todos se vestem à antiga, para dos antigos se lembrarem,
E ter-mos a ideia, de como os nossos antepassados cá viviam...
Pois hoje... em que há tanta coisa e até computadores e televisão,
Em que este mundo tão pequenino já se percorre de carro e avião,
Será que temos saudade do tempo em que os antigos padeciam..?


Feira Medieval de Silves
e as ruas ganham cor e luminosidade próprias, contando uma estória, 
através da história, de factos vividos pelos seus povos 
e que estiveram na origem das gentes de hoje


TRISTE AMOR
À BEIRA DAQUELA ESTRADA
José Carlos da Silva Primaz



Certo dia passei pelo amor... à beira da estrada sentada,
Oferecendo o seu sorriso... aos que seguiam em larga passada,
Já sem terem tempo para olhar, ou até com ela se importar...
E ela por ali foi ficando, sozinha e triste, e até amargurada,
Ali sentada à beira daquela longa e negra estrada,
Pois que outro sitio não tinha... nem lugar para ficar.


E o tempo foi passando sem alguém ao pé dela se chegar,
E esse amor fatigado... por ali ficou a definhar,
Algures perdido, junto aquela árvore do caminho... chorando
E eu, admirado fiquei com essa árvore, que um dia me falou,
Que me disse o quanto aquele amor ali sentado, passou,
Sozinha, mas pelo seu amor que não vinha... esperando.


Hoje, quando por lá passo, ainda vejo o seu lugar,
E oiço também a voz daquele amor... a chorar,
Porque o seu amor não veio, e ela estava de abalada...
Agora somente me resta, no poema deste fado... recordar,
A tristeza e solidão sentida, por aquele triste lugar,
Que nunca mais irá ter o amor... à beira da estrada sentada.



Publicado no Livro a Solo “O Outro Lado da Minha Alma”

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  31.01.2012