A CRISE DO BEM.
24-11-2011
João Justiniano
Verdade! O que é a verdade neste mundo
de ébrios, drogados e ladrões impunes?
Dir-me-o-ás, homem de bem, tu que reúnes
a honra em ti, por que o irmão é imundo?
Assentarás o cérebro fecundo
pensando em construir vias imunes
à podridão dos pústulas. Se os punes,
a quantos punirás no vasto mundo?
A vergonha desceu tão baixo em nível,
que já não sei se ainda será crível
pensar-se na pureza, em honra e brio.
A verdade é verdade, está em crise.
É difícil saber-se onde divise
o homem de bem. O tempo o diluiu?

O ADEUS
16-10-2011
João Justiniano
Você é a melhor lembrança do passado.
Convidei você veio. Amei-a como pude.
De mim eu lhe ofertei, doei-lhe todo o agrado,
que possível me foi. Simples. Modesto e rude.
Você partiu igual a um anjo congelado,
sem me dizer por que. Abriu-me o ataúde
de um falecer moral, cruel, desconsolado.
E até hoje não sei se fui mal de saúde.
As verdades da vida, os escondidos... Creio
que lhe servi de apoio em hora de falência,
com o lírico amor doado quando veio.
Agora, ao fim da vida o adeus. É morta a essência
do amor que ofereci, e o do teu próprio seio
expulsaste de livre e espontânea consciência.

O TEMPO OFERECE E COBRA
Em 13-10-2011.
João Justiniano
Não há como insurgir-se o homem contra o tempo
e sua realidade. Ele oferece e cobra.
A segundo e minuto, hora e dia ele dobra
sem descanso a exigência. E nenhum contratempo.
Por favor, não se peça, acaso, algum exemplo,
nem sequer se pesquise os porquês do hoje e agora,
do nascer, renascer do dia aurora a aurora,
pelo eterno e sem fim multiplicando o tempo.
Conforme-se em saber o homem que nasceu,
e foi criança e adulto, o tempo o envelheceu,
envergou, enrugou e fez tremer as pernas.
De lento vai levando o peso – o grama, o quilo,
sem importar-lhe o que se fala – o isso e aquilo
dos olhares da gente ou de vontades ternas!

TEMORES
03.10.2011
João Justiniano
Fico feliz contigo, amiga, tão feliz,
que a alma silencia e o verbo trava, esconde.
A poética é linda e a não encontro. Onde
tê-la-ia escondido o anjo amor não diz.
Pensei dizer amada e recuei, não o fiz.
Temor de ser senão descarrilado bonde,
quando quisera ser teu pajem, jovem conde,
o sonho e a luz da vida, a fincada raiz.
Pena que chego tarde e muito tarde, ancião,
em teu caminho. É extinto o antigo garanhão,
não tenho como dar-te a estirpe do meu nome.
Só posso oferecer o meu final de vida
à tua juventude. É então melhor, querida,
que não me busques mais. O tempo me consome.

SONETO DO VINHO.
João Justiniano
Meu terno e derradeiro amigo, companheiro,
que não me falta nunca à fé e à inspiração,
ao gozo de sentir-me eu mesmo o feiticeiro
das minhas ilusões falando ao coração.
Vinho que o Cristo Deus por nós bebeu primeiro,
e no seu sangue o fez em paz e comunhão
para dizer ao mundo o eterno e verdadeiro:
A carne é só um tempo. A vida o após, então.
Eu bebo-te meu vinho, assim tal qual o Cristo,
ciente que a embriaguez não será mais que isto:
Inspiração de luz, força de eternidade.
Tu, meu santo vinho, O Jesus Cristo e eu,
temos o encanto eterno e mais que Prometeu,
somos a vida – o hoje, ido e posteridade.

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