desses que no vazio
reescrevem o caos
sobrenadam oceanos adormecidos
subvertem
escritores de coisa nenhuma
de desimportâncias humilhadas
em estado de decomposição
árvores apodrecidas
no interior das dunas
máquinas enferrujadas
sucatas
letras
mapas imemoriais cidades
escritores de vidro
escritores desescritos
por outros escritórios
escritores proscritos
sem igrejas nem oratórios
nem mineiros nem maiores
sem letreiros apriores
sem livros
nem prolabores
desses que ao léu
em luas sem alma se repetem
pelos corredores
entre os desconstrutores de Babel
escritores virtuais
aleatórios
de minha parte
prefiro escritores sem papel
João Evangelista Rodrigues poema (s/título)
os de 45
declaram guerra
aos de 22
os concretos
atiram pedra
contra os de 45
todos atiram merda
contra todos
contra tudo
o que vem após
nem de longe
espiam pela janela
a lua parnasiana
o signo da poesia pisca
entre neon e nada
a mesma letra escrita
a mesma letra escusa
a mesma letra escassa
a mesma luta insana
clava tupiniquim
a roupa suja
o varal da esquina
o marketing
em sangue
marginal floresta
a luta não termina
entre mortos e feridos
seja o que o leitor quiser
ninguém se salva
salve-se quem puder
Desejos João Evangelista Rodrigues
para o Natal
imaginei um poeminha
nada coloquial
nada de Herodes
de deserto
de fuga para o Shopping
de excursão para o Egito
nada de estrela do oriente
do ocidente
da TV decadente
mão quero reis
nem Magos nem gordos
pouparia a vida dos porcos
dos chesters e dos perus
quero uma ceia frugal ao ar livre
uma banquete universal
com vinho e frutas exóticas para todos
quero água potável
não preciso de neve
nem de papel Noel
quero um céu saudável
povoado de pássaros de rara plumagem
sem buraco negro ou camada de ozônio
gostaria que a rena e u burrinho
descansassem em campo fértil e floridas
nada de entregas à domicílio
nada de turismo interplanetário
de viagens às escondidas
a pobreza é igual e triste
em toda a parte
seja no Brasil
no Equador ou no Senegal
no Timor Leste ou no Haiti
no Natal
quero muitas árvores na
Amazônia
muitas luzes nas ruas das metrópoles
na periferia do planeta
quero água potável
menos poluição nos oceanos
menos violência contra as baleias
do homem contra si mesmo
mais cuidado no trânsito
no trato da coisa pública
menos tráfico de drogas e de influência
menos abuso de nossa paciência
de cidadãos
mais clemência para os fracos
os velhos e doentes
mais rigor na aplicação das leis
contra os ladrões e expoiadores
menos corrupção nos tribunais
nas palácios e nas mansões
não será preciso presépio
nem estrebaria
nem galo eletrônico
nem estrela virtual
porque ninguém há de nascer
fora do tempo
fora das maternidades
entre lençóis limpos e
sorrisos cordiais
quero um link para a paz
um kit de sobrevivência
embrulhado para presente
com felicidade e sossego
solidariedade
amizade e confiança
um frasco de amor
sensível
sensual e perfumado
me parece indispensável
para alegrar os dias
que nos habitam de tédio e incertezas
de indiferença e medo
o que mais gostaria no Natal
mais que um anel de brilhante
que o amor fatal da mulher invisível
um carro veloz e alucinante
que um DVD erótico
um Cd dançante
é poder viver e morrer em paz
aqui mesmo onde moro e não demorarei
porque breve é a vida
e leve é a morte dos homens
longe ou perto de Deus
seja em Belém do Pará
em Bagdá
em Roma ou em Belo Horizonte
Convite aos Violeiros
eu convido os violeiros
de São Paulo e de Goiás
em nome de Tião Carreiro
dos violeiros das Gerais
eu convido os brasileiros
não é pra fazer cartaz
meu convite é verdadeiro
cada violeiro traz
mais um novo violeiro
pra mostrar tudo o que faz
violeiros da Bahia
Mato Grosso e Paraná
do Rio Grande do Sul
Tocantins e Ceará
Maranhão e Pernambuco
do Amazonas ao Pará
o Distrito Federal
também vai participar
eu convido os violeiros ...
violeiro vem sorrindo
vem de longe festejar
defender o arco-íris
o direito de cantar
em defesa da viola
da cultura popular
a fé a fauna e a flora
do sertão a beira-mar
eu convido os violeiros ...
violeiro vem no grito
pelo jeito de chamar
do Rio Grande do Norte
de Rondônia e do Pará
Bela e Santa Catarina
Também não podem faltar
cantadores e romeiros
missioneiros sem lugar
eu convido os violeiros ...
não me esqueço do Acre
qualquer dia eu canto lá
berimbau e atabaque
dá o tom do guerrear
pedra furada e tacape
sanfoneiro manda entrar
reunião de violeiro
vai dar muito o que falar
eu convido os violeiros ...
quem ouvir esse convite
não precisa confirmar
tire a viola do saco
e comece a pontear
se achegue companheiro
não precisa de chamar
em casa de violeiro
sempre tem mais um lugar
eu convido os violeiros ...
não se espante meu parceiro
com o que eu vou falar
lá vem o Trem da História
quem quiser tente pegar
no bojo de uma viola
violeiro transporta o mar
todo o povo brasileiro
reunido vai cantar