QUE... ?
Humberto Soares Santa
Que feiticeiro sou ?... Que Deus me alenta ?
Que mago violou o meu caminho ?
Que vida é esta que não me acalenta ?
Que veneno colocaram no meu vinho ?
Que gente é esta que não vejo atenta ?
Que rancor misturaram com o carinho ?
Que mundo é este que inda não rebenta ?
Que força me amassou no seu cadinho ?
Que alquimia me gere o pensamento ?
Que choro cria em mim ansiedade ?
Que grito é este que me traz o vento ?
Que livro me escondeu tanta verdade ?
Que lei me decretou tanto tormento ?
Que poeta imaginou tanta saudade ?
Cotovia-Portugal

QUEIXUME
Humberto Soares Santa
Ouço vozes... sussurros... nostalgias,
Prantos d’alma !... murmúrios de uma vida,
Sopros desta saudade indefinida
Que acompanha e devora os meus dias.
Meu corpo arrefeceu, as mãos estão frias.
No espelho tenho a face mais sofrida.
O rosto perdeu cor... barba crescida.
A alma vai chorando em agonias.
Lá fora chove. Em mim entra a tristeza !...
Nesta melancolia, o mundo esqueço.
Deus !... retirai de mim esta incerteza.
Se me afasto de mim... reapareço !
A alma que voou, hoje está presa.
Quando fujo de mim, em mim tropeço !
Cotovia-Portugal

ENCONTREI UM SANTO
Humberto Soares Santa
No meu caminho encontrei um santo,
De porte humilde e de fala mansa,
Um homem meio divino, meio criança,
Nu de glória, enxugador de pranto.
No gesto espelha a alma! ... A voz é encanto
Que traz a calma e incute a esperança
Sem laivos de rancor ou de vingança,
Serena no dizer, doce no canto!
Exemplo de ternura e de bondade,
Senhor da própria dor, dono do querer,
Perfeito no amor e na verdade,
Mostrou qual o caminho a percorrer.
Já sei como se alcança a santidade.
Só sei como se faz… falta fazer!
Cotovia-Portugal

A ÁRVORE
Humberto Soares Santa
O vento assobiou soprando forte.
A árvore foi bailando, sacudida,
Enfrentando as rajadas, destemida,
Pra não vergar seu tronco, ao vento norte.
Desconhecia a triste, a triste sorte,
Teimando em defender a própria vida!...
Sem força, sem poder e sem saída,
Enfraquecida, foi perdendo o porte.
Exausta, a gigante soçobrou!...
Eu vi, quando a senti perder a fé
E a última rajada a empurrou.
O colosso vergou, caiu e até
Foi num choro de folhas, que tombou!...
…Há árvores que não morrem de pé!
Cotovia-Portugal

NÃO MATEM AS ROSAS
A sarça arde no monte... Quem a vê ?
Por onde andam Moisés e os seus Sinais ?
A que bezerros de ouro adorais ?
Que pragas surgirão ?... Quem as prevê ?
As Bíblias estão na estante... Quem as lê ?
Que lutas p’lo poder surgirão mais ?
Perante que demónios vos curvais ?
Que bispo vos ensina o que não crê ?
O podre da matéria infecta o ar
Com miasmas, em lufadas sulfurosas.
No forte, a força é bruta e pra matar.
As vaidades passeiam-se, orgulhosas !
Triste Planeta Azul, estão-te a deixar
Sem sonhos, sem crianças e sem rosas !
Cotovia-Portugal.

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