PÁSSARO SÓ
Humberto Rodrigues Neto
Assim como essas aves solitárias
viver não logram se não for em bando,
cada um de nós é um pássaro buscando
não ser no voo da vida meros párias.
No afã de não ser sós vamos ruflando
no azul da vida as asas temerárias,
buscando, dentre as aves solidárias,
as que estão sós, na imensidão flanando.
Se tu’alma traz da solidão o pó,
e igual a mim és tímida avezinha,
causando às demais aves medo e dó...
vem desmanchar tua solidão na minha,
e nunca mais hás de voar sozinha
e nem meu voo se fará tão só!

MOMENTO
Humberto Rodrigues Neto
Velado por teus zelos de pudor,
seria lindo, meu bem, o vão momento
de não te amar somente em pensamento
mas ter da tua presença o corpo em flor!
À meia luz o teu constrangimento
seria um atrativo a mais do amor
naquele doce instante de esplendor
de cujo encanto vivo e me sustento!
Ah... como seria lindo o vão rubor
que eu visse em ti num célere segundo,
tornando o teu rostinho encantador!
Depois... o instante de um suspiro fundo...
em que as janelas fecharias ao mundo
e me abririas os braços para o amor!

MARIA DAS FLORES
Humberto Rodrigues Neto
A orquídea que um dia foi na mocidade
em dias de fastígio e de ventura,
Maria ainda conserva com amargura
no cofre imorredouro da saudade.
Do lírio, então em plena formosura,
guarda apenas na mente a suavidade;
hoje tímida violeta fê-la a idade,
ou um miosótis sem viço e sem candura.
Maria agora traz o olhar vermelho
das lágrimas choradas frente ao espelho,
ante um rosto que franze e se esfacela!
Pranto de perda da falaz vaidade,
tributo amargo da fatalidade
de um dia ter sido tão formosa e bela!

DELÍRIO
Humberto Rodrigues Neto
Pressinto, algumas vezes, que me elevo
a alcandorados cimos majestosos,
de uma bizarra região de gozos,
à qual em êxtase também te levo!
Talvez lembrando algum viver primevo,
à mente vêm-me sonhos vaporosos,
de um tempo em que, juntinhos e ditosos,
nós já vivemos e do qual me enlevo!
E é-me tão nítido esse tempo lindo....
luas... auroras... Posso até retê-las
nas mãos, o seu tamanho comprimindo!
E vão meus dedos, logo após contê-las,
revérberos de sóis em ti esparzindo,
e em teus cabelos debulhando estrelas!

SAUDADE...
(a minha esposa, in memorian)
Humberto Rodrigues Neto
Teu desencarne fez-me descontente,
com a alma e o coração sempre em quebranto;
do nosso lar foi embora o antigo encanto
que tu levaste assim... tão de repente!
Do alto onde estás podes sentir o quanto
por ti pranteio ao te sentir ausente,
e nada existe que tão fortemente
me incline à solidão e ao desencanto!
Não mais teus lábios, nem os teus abraços
tentei buscar noutros alheios braços,
preso à paixão que só por ti nutria!
E hoje vergado a esta infelicidade,
a Dor se fez a esposa do meu dia,
e à noite faço amor com a Saudade!

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