UIRAPUR
Graça Campos
Canta, Uirapuru,
Teu misterioso canto
De amor, és rei
Trazendo a sorte vida afora
Na tua voz maviosa!
Oh, talismã, da úmida floresta,
Tudo é silêncio, as folhas se aquietam
Enquanto as águas estão a sussurrar...
Os outros pássaros cantores ficam mudos
Para ouvirem a tua sinfonia
Suspira o bosque inteiro na magia
Por entre os sombreados soa a música
Uirapuru, deus-pássaro encantado
Graça Campos, 21/08/2011

FIM de TARDE
Graça Campos
Um talvez na agonia das horas
A palavra “NUNCA” será dita
A atitude ”BASTA” inflama
E queima as projeções
Persuasivas...
Uma música!
“Do you understand?
Não, ainda não entendo...
Mas, é preciso vestir-me de coragem
Encarar a noite escura
Embora todas as luzes já se acendam
O escuro, a nuvem plúmbea visita a imagem
E torna-se cúmplice de minha paisagem...
Um cachecol meio tecido em preto e branco
Amarras de agulhas da cor rosa
Dali a pouco estará perfeito
Para aquecer a pele fria do meu colo nu...
Um ontem em noite de brilho
Um hoje se vai para a vida por um fio
E a sede de calor invade a sede de um colo amigo
E a sede das verdades transborda em vias
A inundar o olhar amedrontado
Banhando-me a face que tanto sorria
Quem sabe, o mirar-se na perdição do tempo
Abra uma fenda do entendimento
Enquanto vou bebendo da ânsia
Renasce a gota que faltava
E invade-me a esperança
De uma senhora noite de luzes
De abraços, nos braços da música
Nas mãos que desenham caminhos
Rendados de sonhos de amor...
Graça Campos, 16/06/2011.
CAMPOS, Graça. Poema. FIM DE TARDE

A COR dos VERSOS
Graça Campos
versos cor de pele
conscientes e maduros
jogam por terra o objeto
e tornam-se herdeiros dos filhos da Terra
flui no sangue vermelho das veias azuis
cor negra dos versos na mestiçagem das letras
que compõem canções , que ressoam tambores
e que rezam a vida pela crença
a alma tinge palavras
emoções remexem memórias do berço, do tronco, da casa
da acentuada cor do sentimento que se escorre no poema
inerte da dor do tempo em que o açoite era sem eira,
a duras penas
do olhar nos olhos do ser imperfeito
enveredando nos versos os sonhos da grande viagem
de volta a meu berço
de onde fui arrancado, deixando o reino, família, congado
minha sina adotada nos terreiros teus
mistura de cantos, de sons, de batuques, de festas, reisados,
de dança e magia
do lado esquerdo cicatriz no peito
uma ferida se abre rubra e sangra
até desfalecer em minha lembrança
e calar-me no grito preso na garganta.
Já posso dizer poesia de negro,
contando a história sem atrofias
cantando no tom da cor culta, senhor!
Por que há um colorido novo
sei que posso escrever as minhas próprias linhas
deixei de ser somente o objeto de estudo
sou manifesto, origem humana
falo do amor, do que tenho e o que falta
para que todo o universo da gente
conheça e reveja os “conceitos” vigentes
e reconheça o colo da mãe
África...
CAMPOS, Graça. Poema. A COR DOS VERSOS.

GUARDADOS
CAMPOS, Graça
Havia um pote onde guardei
O desbotado de minhas paredes,
Um lago seco para que nenhuma gota de lágrima
Minasse nas sendas do meu vazio
Guardei sementes de um tempo
Em que plantava sonhos
Juntei as lembranças em pétalas
Desidratadas da flor
De aroma ímpar
Selando ali,
Em cambraia bordada,
A mais forte palavra:
AMOR...
A argila do pote
No bojo opaco escondia
Minúsculos traços das mãos
Que bateram, sovaram a terra barrenta
Na memória do pote
Entrelaces de histórias do oleiro
E incontáveis histórias minhas
Lembranças, retratos queridos
Pedaços de fita e laços
De afetos...
Haverá de outras argilas,
Paredes esguias de muitos potes,
Cada qual de sua única forma
Que a própria vida concede
Criando esperanças
No cheiro de terra molhada
Das mãos do trabalho do oleiro
Surgirão outras histórias
Que serão
Guardadas...
Graça Campos, 05/11/2010.
CAMPOS, Graça. Poema. GUARDADOS

CONCHAS
Graça Campos
Entre as espumas
O mar se entrega
A areia beija
Embarcam
Desembarcam
Mistérios profundo
Na fonte, a sede
De meu corpo
Faz das mãos, a concha
E nesse mar de minha alma,
Eu bebo
Vida
Carrego a leveza
Em nácar cristalizado,
Um mundo frisado
Alinhado
O leque
Possíveis caminhos se abrem
No dorso das conchas
As ondas nave/Gam
E as naves-conchas
Deslizam céleres
Espaço infinito
Levando e trazendo
O amor
Sagrado ser
Afrodite,
Adornada de pérolas
Na divina beleza
De Vênus
E eu cato as conchas
Na imensa areia
Maduras da viagem
Repletas de segredos
Delineados riscos
Descobertas,
E histórias a desvendar...
À minha mana Bia, querida!
Encontros en/cantos. Graça Campos, 01/11/2010

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