ANO VELHO FUGIDIO
Frassino Machado
Com tantas contrariedades
Ao longo do ano ocorridas
Desgraçaram-se as vaidades
Perderam-se muitas vidas.
Muitos foram os humanos
De entre todas as idades
Que tiveram fartos danos
Com tantas contrariedades.
O coitado do Pai Natal
Viu-se aflito em suas lidas
Más prendas por natural
Ao longo do ano ocorridas.
O Ano Velho e caduco
Trouxe negras novidades
E co’ elas dando em maluco
Desgraçaram-se as vaidades.
Foi-se a árvore das patacas
Oportunidades perdidas
Por causa destas ressacas
Perderam-se muitas vidas.
Agora por entre lamentos
Tudo o que o vento levou
Fez desperdiçar talentos
A quem por eles labutou.
Frassino Machado
In RODA VIVA

DA OPÇÃO POÉTICA
Escolha determinante
Decisiva e sublime
Acção mais que actuante
Que toda a alma exprime.
Àqueles que a combatem
Só se há-de confrontar
Que quanto mais lhe batem
Mais a fazem destacar.
Palavras que são palavras
Só por si não dão sustento
Se não forem bem tratadas
Depressa leva-as o vento.
Palavras belas são versos
Sejam grandes ou pequenos
Com sentimentos diversos
Inefáveis, rudes ou ternos.
Toda a opção dilapidária
Por ninguém deve passar
Pois que poesia é contrária
A quem não s’ apaixonar.
Frassino Machado
In MUSA VIAJANTE

FESTAS SÃOJOANINAS
Vem por aí o popular São João da Ponte
Festa de arromba em toda a santa terra
Estrelejam foguetes nas fraldas da serra
E as crianças agitam todo o horizonte.
Danças, cantares, há-os por ali de fronte
Tristezas e angústias, tudo se enterra,
Em ninguém há lugar para se fazer guerra
Que o sossego e a paz jorram daquela fonte.
Nas avenidas da Cidade há cortejos
E muita gente empoleirada a ver passar
Os maiorais que ostentam máscaras e beijos.
Ó São João, que levas aí para ofertar?
A Sorte Grande, tripa-forra ou só sobejos?
Ah, ganda Santo, o qu’ interessa é festejar!
Frassino Machado
In AS MINHAS ANDANÇAS

QUO VADIS, HOMO?
O que cada um de nós bem quer
quem o saberá convictamente?
Turba-se a visão à luz do ter
e o SER evapora-se da mente.
Resta-nos a esp’rança e é bem certo
cada noite gera outra manhã
e até o próprio longe fica perto
na chama que a alma sentirá!
Mas à nossa volta o horizonte
Nos estende a triste realidade
desta vida humana sem sentido…
Procuramos algo que desponte
Em nós aquele germe de verdade
Que afaste de vez o seu gemido!
Frassino Machado
In JANELAS DA ALMA

À JANELA DO AMOR
Para eu te enviar os cinco poemas
Saídos de minh’ alma co’ emoção
Não tens que inventar uma razão
Porque ela já existe entre dilemas.
Não tens que ir à janela a ver passar
A saudade de mim qu’ anda à deriva
Em busca de lembrança assaz furtiva
Por troca de uma lágrima a chorar.
Não fiques debruçada à minha espera
Assume antes postura de verdade
Sem te arrastares em falas de quimera.
Eu quis morar em ti, minha beldade,
Recebe lá meus versos, sê sincera,
Pois não tenho janelas nem vaidade!
Frassino Machado
In JANELAS DA ALMA

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