CAPA DA MENTIRA
Ferdinando
A mentira mora atraz dos medos
Na capa da verdade, emudecida
Mistério onde riem os segredos,
Velados na vertigem da corrida
O seu feitiço feral nos penedos
Rasga inclemente a voz da vida,
Onde vivem gastos sonhos ledos
No longe onde o tempo se retira...
És estátua na noite que não fala
Como fraude, adornas-te de gala
E desenhas o porvir numa ilusão.
Semeias a desgraça no teu mundo,
E te acolhes em prazer imundo,
Violando a verdade e a razão.

A GRANDE VERDADE
Ferdinando
O homem está exausto deste mundo...
No nevoeiro fantasma que respira,
E torna a nossa calma uma mentira,
Em apatia, que cava mais profundo!
O sol já não dorme sobre a pedra,
Que trazia a água para as fontes,
Os rios magros, olham as pontes...
- Abraçando o prado que não medra!...
Os mares vão e voltam numa ira
Como tudo se coloca ou se retira,
Na noite, quando a vida amortece.
O tempo irá rasgar o calado mito,
E, nas pesadas horas de granito,
Espera o leito, que todos adormece!

A NOSSA CRENÇA
Ferdinando
A vida está deserta de irmandade
Nos dias mais azedos do presente!
Somos a luz na arrefecida claridade
Que irmana a nossa alma de contente.
Lutaremos pela pobreza desmedida,
Nas masmorras onde o grito é a voz
A nossa espada que seja a voz erguida,
Na crença que emotiva a todos nós...
Lutaremos contra o som do tempo,
Que nos magoa triste sem lamento...
De palavras em palavras inventadas.
Somos futuro, em gesto convertido
A força controversa do sentido...
- E que as noites sejam alvoradas

A VIDA CALA MEDOS
Ferdinando
Tudo se cala nas horas e a noite pesa,
num sonho moderado de um só suspiro
eco do mundo, como a voz das torres
no retrato esfingico dos curvados dias.
Gostaria de rasgar a capanga da mentira,
entrar na doçura de um sorriso puro...
adornar de vidas a estrada dos medos
suspensa sobre os olhos dos inocentes!
Vencer procelas no Oceano exausto da
mentira, onde o olhar se fecha sobre as rochas
incendidas, que nos queimam o tempo
num futuro, que germina flores de lume.
A poesia se suprime fechada no silêncio
onde mora um punhal oculto em gestos
assustando o poeta que rega todas as dores
num lirismo, que fomenta o porvir da vida.

VÍTIMAS DA VIDA
Ferdinando
Do tempo nascem séculos a conversar,
Com a idade que semeia a pobreza...
O pranto, é a bandeira em cada olhar
Hasteada sobre as brumas da tristeza.
Desfilam mentiras, para nos vergar
Rasgando a verdade e a beleza,
Anoitecem e madrugam com o luar
E ficam todo o dia à nossa mesa!
Quando o vento chora com as fontes,
Os Profetas falam, a olhar os montes,
Na espera que a concórdia vá nascer...
A amizade está no dia que não vem...
- Pois de nada, vale aquilo que se tem,
Se não temos a liberdade de o viver!

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