Aquele Olhar
Estela Belém
Aquele olhar tão profundo e triste,
Olhar perdido, espelho da alma,
Que, naqueles olhos, transparece,
Tão suave, tão doce, tão calmo...
Olhar assim, nunca antes tinha visto,
Triste, mas calmo, profundo, mas doce,
De um tom castanho, cor de mel, sentido,
Que espécie de tristeza, conterá ele?
Aquele olhar, transmite sensações,
Que são controversas, desde dor, pena,
Amor, saudade, desamor, que mais?
Sentimentos que se misturam e se desligam,
Para se unirem, num simples olhar,
Aquele olhar, que nos deixa atordoados,
Sem saber como agir ou reagir,
Se olhar, ou simplesmente sorrir.
Estela Belém

Solidão ou ficção?
Sinto a tua ausência
Nas longas noites frias,
Nas madrugadas vazias,
Nas auroras boreais.
Será solidão ou ficção?
Este sentir, esta agitação,
De sabor acre-doce,
Que me destrói a razão.
Apodera-se-me de tal jeito,
Envolve-me e oprime-me,
Esvazia-me espírito e alma,
Num delírio que não acalma.
Alerta, olhos bem despertos,
Deitada, volto-me e revolto-me,
A voz da consciência censura,
Para me encher de amargura.
Inquietude de vida, degredo,
Falta de calor, de aconchego,
Feita prisão, de um coração,
Bravio e deserto de emoção.
Estela Belém

Estranho poema
Quis escrever o poema mais estranho
O mais realista e mais triste
Durante esta longa madrugada
Mas a caneta caiu-me da mão.
Quis escrever um nome
Soletrar todas as suas letras
Senti enorme vontade de o fazer
Mas a caneta caiu-me da mão.
Quis escrever sobre isolamento
Sobre despatriados, deslocados
Que não estão, nem aqui nem ali
Mas a caneta caiu-me da mão.
Quis escrever sobre mim
Emoções, razões, negações
Pensamentos, interrogações, pesar
Mas a caneta caiu-me da mão.
Quis escrever sobre a verdade
Aquela que se diz olhos nos olhos
E que é tão rara nos dias de hoje
Mas a caneta caiu-me da mão.
Quis, enfim, escrever qualquer coisa
Que o meu raciocínio não concebeu
Não encontrou uma forma de o fazer
E dei com a caneta caída no chão.
Estela Belém

Nostalgia
Quando me quedo quieta
sem nada fazer, nada dizer,
aparece aquele sentimento,
como asa voando no vento,
nostalgia, penso...
Sensação de distância,
de querer voltar a viver,
coisas que foram e não são,
partículas e peças de puzzle
armazenados em saguão...
Pequenos nadas guardados,
amarelados, desvanecidos,
que um tempo fez apagar,
como escrita na areia do mar,
para sempre, lentamente...
Há um dia e uma hora,
em que cada um de nós,
limpa e arruma o sótão,
onde guardamos os sonhos,
nossos fantasmas nostálgicos...
Estela Belém

Códigos
Pensamentos que vão e voltam
Rodopiam num vaivém incessante
Qual carrossel de feira popular.
Não consigo decifrar certos códigos
Nem deslindar o pensamento alheio
Observo com os olhos da alma, atenta.
E noto que o entendimento acabou
Não há coerência no que concebo
Apenas palavras soltas, vazias.
E vou andando, para onde… não sei…
Tento caminhar por um certo trilho
Mas de tanto ter lutado, cansei…
Quero escrever, passar para o papel
O que me vai no espírito, difícil!
Nada me faz grande sentido.
O mundo que nos rodeia é incerto
Como incertos são os indivíduos
Mundo cru, Mundo cão…
Não vou mudar nada, eu sei
Mas não desisto…
Estela Belém

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