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CORRENTEZAS
Eliane Triska

Tão longe que o sombrio negro me trouxe...
Vem comigo - e me nega a intuição,
Até às almas tristes de um rio doce
Que, presas às correntes, ficarão.

E a elas seguirão, no eterno agora,
A dor de um grande amor chorado ali,
Onde nenhum mais cabe ou se demora
E parte da minha alma que perdi.

Se diviso algo vir em meu socorro,
A jovem dor não deixa compreender.
Parar! Por que parar? Sou eu que morro!

E, por mim, se ele um dia suspirou,
Há de saber da morte do querer
E meu morrer da vida que restou!




Em demasia...
Eliane Triska

Sossega-te, ó vida... Em demasia
Amante, sou teu caso, sem que queira
Ser segunda, a outra, ou a primeira
Das letras ser mais uma companhia.

Estrofes são perversas... Almas frias!
Solitárias raparigas, sem enredo
Condenam-me, na sentença, ao degredo!
Amordaçam-me a viver de fantasias!

Nem sabe a vida... Nem sabes, ó vida!
Se sou água, o ar, ou sou comida.
Se do vinho sou o calor, do que tu bebes...

Farta-te, pois! Sou como um banquete!
Usa o que em mim, sobras, ao ter-te,
E morre, no gole que te despedes...



BERRANTES DO SUL
Eliane Triska

As palavras acabaram onde,
dos pássaros e seus hinos,
nos berrantes campos abertos
os restos fizeram ninhos.
O silêncio cruzou o espaço, abraçando
as grandes terras úmidas do Sul.
Ai, que só! Ai, me dó! Ver a estação babando,
afogando o chão, engolindo pedra com 
a alma faminta da desolação! 
São as cheias da dor ferindo as nascentes da imensidão,
ignorando as noites ao secar estrelas,
bem ali no céu, aonde eu te via,
que eu nunca pude tê-las!



NINJA DO PORTAL DOURADO
Eliane Triska

Trago o sangue do orgulho e timidez
Dos ideais grafados nos papiros.
Por força e fé dos íntimos retiros,
Nas letras da guerreira, a sua tez.

Eu vim chorar e trouxe o meu tormento,
No tom agudo que se impunha a espada.
Por baixo dessa túnica dourada
A triste geografia do relento.

Chego do exílio dos templos ocultos.
De alma crescente, deixo atrás os vultos
As testemunhas que minha alma encobre.

Que, justo a fantasia a que se entrega,
Fá-la cegar e, quando ainda mais cega,
Assim vestida, crê ser uma nobre.


BRASIL AFRICANO
Eliane Triska

Por que tombas gigante exausto ao chão
Que a noite negra imensa sabotou?
Ai, lua! Desce!... És de papelão!
Adeus estrela de ouro que voou.

Nessa amplidão de astros, o Cruzeiro!
E de joelhos no pulmão do mundo,
Meu africano chora brasileiro.
Teu verde e o amarelo doem fundo.

Choros baixos... Mais alto é um sorrir!
Quem entende se num só chute rola
O que milhões de sonhos vão reunir?

Com pedaços de céu que o vento trança
O grande palco, acende e encena a bola...
É ela! Ó fantasma da esperança!

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  05.03.2012