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O poeta e a flor
Douglas Mondo


Na margem esquerda do velho rio
estava ao céu perfumada flor
Suave aos olhos verdes da mata
ousada como seio servindo amor

Aos pés do carvalho velho em sono
vagava antigos ideais um poeta
Ausente aos olhos a sensual flor
Na mente presentes rebentos e dor

Na magia o imortal doce instante
faz do tempo uma lágrima que cai
e banha de vida o suado semblante

O poeta sente o aroma da bela flor
Curvado em perfume poema e sonho
aspira a fragrância e renasce o amor



Noturno
Douglas Mondo


Caiu a noite
A nostalgia
misturada co'uma
leve melancolia
desceu pela garganta
e como a seiva da uva
deixou minha alma
bêbada em tuas mãos




Sem noite
Douglas Mondo


Mesmo a clareira aberta na mata vazia,
pela mata, não pelo homem, de medo mata.
Mesmo a loba que se esconde na gruta
vazia de luz, na noite silencia. O ar é
apenas cortado pelo vôo do vampiro
com cheiro de amônia. Bebeu Sônia.

Mesmo a morte no som da noite, lúgubre,
no eco vaporiza. Não há ferocidade.
Não há atrocidade. Apenas morte. Morte.
O predador caça. Não há vítima. Há sono
sem sonho. Não há justiça. Nada há, lá.
Apenas a ausência de cores e sons.

O homem não interfere. A mata fechada fere.
Tudo é natural. Quando a coruja teima em
quebrar o silêncio na vitória sobre o rato,
a noite a censura. Nada quebra o poder da noite.
Apenas a velha árvore acima das copas
observa a ausência da lua. Não há brilho.

O falcão anuncia sua sabedoria no prazer
de comer o pardal alimento. Por instantes.
Apenas. O frenesi da carne não quebra
a harmonia da noite. Ou quebra. Nunca!
O pardal foge. Mesmo a noite se esconde
em seu alpendre. Não há noite. Não há nada.



Condenado ao Amor
Douglas Mondo


Em tempos outros, pediu-me um poema
solto em folha de papel.Era quase carnaval.
Fevereiro o era, por sinal.

Dei-lhe o poema e quis lhe conhecer,
como musa que ainda não era,
não por meu querer.

Já eu a quisera. Sabia que seu, um dia, seria.
Poeta-Menina, posso ser seu bem-querer?
Seu amado por bem-dizer?

Devagar, quase devagarzinho,
fui me mostrando
feito cantar de um doce passarinho.

Versos fiz, outros mostrei, sem assustar
a bela poetisa. Que nome eu disse?
__"Nome não lhe darei"

Mas quisera eu ainda saber:
__"Qual seu nome?"
__"Onde você mora?" Ainda saberei.

Ela devagar, quase devagarzinho,
deu-me sua alma, seus versos e depois,
mulher-linda, prendeu-me feito passarinho.

E eu, canto a vida, feliz, preso em seu coração.
Beijando-a loucamente, como seu amorzinho.
Que o sou, seu homem e menininho.

__"Posso ir lhe beijar?"



Bolero
Douglas Mondo


No giro do compasso, 
meu passo se mistura
e ela esfrega e me tritura
como carrasca, a judiar
de minha doce candura. 

Bêbado de emoção, 
levado pelos lábios
e pelas mãos, ela arrefece
a judiação e me recebe,
dançarina de salão.

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  24.01.2012