Amanheceu
Cida Valadares
Amanheceu... e em meus afetos...
Lacônica... agonia!
Olhei ao lado, em minha cama e teu
lugar, vazio está.
Onde andarás?
Porque não consigo adormecer
o dia?
A tarde, certo, virá e te trará,
e te fará mais perto, de novo...
aos braços meus!
Sinto na pele o suor
Da febre que me delira.
O palpitar do ventre
que suplica, às entranhas, pelo vício!
A noite, a fantasia faz da realidade
fria, incessante pensamento...
Eu não queria...
Sim, eu queria...
Eu não queria...
As horas passam lânguidas e manhosas
E a madrugada não traz
a tua imagem, à porta.
Volta?
Meus olhos percebem, aos poucos,
a luz se adentrando...
E clareando esta realidade mórbida
Que agonizou tua presença,
cada vez mais...
Mais uma noite...
Uma tarde...
um dia...
E a saudade escorna em mim esta agonia
Embriagada de visões de espectros
Que meus braços buscam abraçar
Enlouquecidos pela solidão
presente.
Que o dia não sente,
não pressente...
Que a madrugada se faz tão morta
Como eu...
e o dia...
que...
...Amanheceu!

Devaneios de Amor
Cida Valadares
Assim como as notas vão formando as melodias,
para compor a mais bela canção de amor...
Meus devaneios invadem a imensidão, viajam em ventanias,
Procurando aquela estrela guia que percebo
logo adiante, bem ali...
À espera de que eu a encontre , recolha, e entregue
com tudo de melhor que eu tenha...
Somente para ti.
Assim como a chuva começa serena e vai se avolumando,
para compor a tempestade entre raios e trovoadas.
Meus devaneios respingam, se encharcam e naufragam,
procurando no mar de minha alma encontrar ,
entre todos os versos que fiz e entre,
também, todos que li, aqueles que eu entregaria...
Somente para ti.
Assim como o futuro se aproxima entre sorrisos e olhares,
para compor uma existência calma e feliz.
Meus devaneios ganham asas , percorrem mares e cidades
até que pousam num voo de anjo ....
E, entre abraços e beijos, lembranças e saudades,
Façam gerar e nascer toda a felicidade que não temi
em procurar e encontrar...
Somente para ti.
São devaneios de dor... estilhaços de sofrimento.
São devaneios da alma...saudades e lamento.
São devaneios da vida...da vida que eu quero compor...
São devaneios, são sonhos...
Prenúncios de um grande de Amor!

Esboço...
Cida Valadares
Esboçaste...
Meu carinho, meu afeto,
minhas palavras , meus versos e meu corpo...
Negando-me!
Esboçaste...
Meu sofrimento, na solidão,
na angústia, no desespero e no tormento...
Abandonando-me!
Esboçaste...
O óbito de cada instante que findava em minha vida.
Meus encantos, minhas esperanças e tudo
que de ti perdi...
Partindo!
Olhando-me ao espelho, não me reconheço...
Esboçaste-me, cruelmente, tanto!
Que olhando-me, de qualquer canto
Só consigo enxergar
Este meu rosto mascarado,
este meu coração mal amado...
Herança deste teu esboço
Plastificado de mim!

Beijos, Sedas e Estrelas
Cida Valadares
Nossos lençóis testemunhavam estrelas.
Muito mais do que sedas e ensejos, cobriram nossos
desejos...
A veia da flor batia num ritmo de coração
e eu quis que tu entendesses, o quanto além fora
o nosso amor!
Além do leito, arfado peito...
Acariciei a estrela desenhada em tom furta-cor.
O olhar não conteve a saudade que chorou...
E beijei a lembrança dos doces beijos
que por tanto tempo foram o enredo
e o cenário... do nosso amor.
Hoje, há um acalanto de alcova esmaecendo,
O tremor de um corpo desolado...
O luzir de uma vela se esvaindo,
Apagando o tempo, lentamente.
Gotejando a música, nota a nota,
Como aquele aperto que a garganta transporta
Para além do além, numa agonia quase morta
De lembranças, apenas, e por tão bem querê-las e reconhecê-las
Desenhadas de beijos, sedas e estrelas...

TEU RETRATO.
Cida Valadares
Ah, meu amor, é na penumbra,
que a minha mão passeia, tão carente...
Busca no passado o teu sorriso ausente,
o teu abraço, aconchego do meu corpo, em solidão!
E os meus olhos, mergulhados em quimeras,
Já não suportam mais trilhar tantas esperas, nesta
carência ensandecida, do meu coração...
Eu só queria olhar-te uma vez mais,
e no tremular da vela do candelabro,
Hipnotizar-me enquanto toco o teu retrato,
tateando teus traços, docemente...
Esquecer a dor que engravidou-me o peito,
Que me sufoca, e cresce de solidão meu leito,
convulsionando meu corpo de...desejo.
Este desejo que sopra, e arde, qual fornalha,
atiçando o fogo na mortalha com que me dispo,
esperando o corpo teu...
E para não sentir mais, nenhum maltrato,
Adormeço, acariciando entre mil beijos...
A doce imagem, que me restou de ti:
O teu Retrato!

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