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GRINALDA DE TROVAS
Célia Lamounier de Araújo – 30.6.99 

Árvore velha, esgalhada,
minh’alma serviu um dia
para abrigar, encantada,
uma ave rara: a poesia.

TROVA-tema de Carlos Guimarães Jr.


Uma ave rara: a Poesia
é divina e afortunada
transformando em corrupia (roda viva)
árvore velha, esgalhada.

Árvore velha, esgalhada,
guardando versos recria
que ali, da fruta dourada,
minh’alma serviu um dia.

Minh’alma serviu um dia
como caixa aveludada
de palavras (cornucópia)
para abrigar, encantada.

Para abrigar, encantada,
sonho, amor e fantasia
nos galhos d’alma pousada
uma ave rara: a Poesia.




FEITO NOITE 
Célia Lamounier de Araújo 


E um primeiro beijo ali no chão
entre tapetes rosas ilusão
Depois... entre carícias ao céu voar
dizer bom dia aos anjos, várias vezes.
A vida passa, estou... só a sonhar.
E o sonho ardente imaginado por nós dois
era utopia, nasceu febril, vibrou em versos
afogueou as faces, trouxe alegria
e desapareceu
deixando o mesmo vazio. 
O mesmo não...
Um vazio diferente: feito noite.




LÍRICA DO TEMPO
Celia Lamounier de Araujo


O tempo cavalga cavalos
ondula na eternidade
manto negro, noite da vida
céu azul, vida e saudade.
Eu pequenino nesta imensidão
passo como o vento indiferente,
perplexo passo, e o coração
nem descobre o inconsequente.

A vida é um segundo no tempo.





O SEMPRE - Célia Lamounier de Araújo


Nasci nu
deram-me banho e um número
na pia batismal um nome
e o tempo vai moldando
o nome ao corpo e à alma
e do nascido faz-se a palma
que de outros vai se magoando
e fatos vão curtindo
curtindo a pele
que se enruga a cada ruga
a cada impacto
no pacto da vida e morte.

Sempre a porta se abre e adentro...
Para outros, antes da porta
não importa nada,
importa ao nome juntar títulos
acrescer o nome é crescer o eterno
da relativa importância
de se chegar sempre em qualquer lugar.
Há pessoas que não chegam nunca.

Sempre a porta se abre, se fecha
a cada ato e para cada um
ficam as marcas vivas 
precioso quilate do nu nascido
que vai partir e regressar
e renascer e revoltar
sempre mais enrustido.
Há pessoas que sempre ficam.



ESPIRITUAL - Célia Lamounier de Araújo

No alto do morro
janelas se escancaram
em busca do sol
pensando em Você
Você que é poeta
sem nada escrever.

Você que é só alma
em corpo-fantasma que vê
janelas escancaradas
por onde a fome negra
é minorada com raios de sol
e esqueletos de criancinhas
subindo ladeiras
desconhecem Você.
São anjos desgarrados
versos de sua poesia
preto e branco no verde
no vermelho a brincar.

Janelas escancaradas
onde o medo que existe
é da lata d’água furar
pois no morro água-rara
é riqueza sem par.

Janelas escancaradas
famintas de solidariedade
esperam por Você que,
tão azafamado, passa sem as ver
... E a tarde vem chegando
num olhar de a-Deus chorando
se fecham, outra vez...

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  24.01.2012