FAZER AMOR
Carmo Vasconcelos
Fazer Amor…
Pura expressão tecnicista!
Como se o Amor se fizesse,
como se das mãos brotasse,
como se do chão nascesse...
Como se houvesse o artista
que tal obra projectasse...
Como se o Amor fosse táctil,
mecânico, elaborado,
artefacto, peça fácil,
mero produto acabado;
matéria reconstruída,
cria gerada e nascida...
Fazer Amor...
Se alguém fazê-lo soubesse,
qual artífice faz a obra,
qual actor inventa o gesto...
De tal modo abundaria,
tornado tanto e de resto,
que ninguém o buscaria
em ânsias, por ser de sobra.
Por não existir tal dom,
o Amor é raro, precioso,
feito mistério e encanto...
Génio bom e luminoso
que das harpas tem o som
e das sereias o canto.
O Amor…
Pode até inventar-se,
pode vender-se, comprar-se,
pode adiar-se, esquecer-se,
como uma Graça esperar-se,
sofregamente querer-se...
Mas jamais pode fazer-se!
***
(Do livro “Geometrias Intemporais”, Lisboa, ano 2000)

INCONSTÂNCIA
Carmo Vasconcelos
Tudo em mim paira suspenso,
indefinido.
Sou a teia de fios diáfanos,
inconsistentes.
Nada me enleia…
Odeio o fixo, o programado.
Sou a mudança, a inconstância,
o improviso.
Sou a gaivota que voa solta…
Preciso espaço
p’ra espairecer o meu cansaço.
E se o amor busco e atraio,
que seja um raio que caia ao lado,
que me estremeça, me enlouqueça,
sem me atingir…
Sou o múltiplo
que não contém a unidade.
Só peço abraços, não quero laços.
Busco emoções,
não quero grilhões!
Sou o sonho
que não consente a realidade.
Sou um faminto que engole anseios,
mas… sem rodeios,
prefiro a fome à saciedade!
***
(Do livro “Geometrias Intemporais”, Lisboa, ano 2000)

O RESGATE
Carmo Vasconcelos
Vieste das cavernas da escuridão,
vela exaurida…
Trazes as marcas
dos morcegos desarvorados,
as cicatrizes
dos vampiros esfomeados,
o corpo exangue,
as mãos em sangue de os enxotar.
Passaste fome de amores errantes,
comeste sapos que te mirraram,
silvas e cardos que te arranharam.
Passaste frio, gelaste a alma,
e numa manta feita de dores
te embrulhaste.
Houve batalhas de Luz e Treva,
e os pirilampos, Guerreiros da Luz,
voaram baixo…
Vencendo a Treva
te resgataram, te iluminaram,
e tu, vela exaurida,
hoje és um facho!
(Do livro “Geometrias Intemporais”, Lisboa, ano 2000)

ESFÉRICO
Carmo Vasconcelos
Redondo é o ventre
que gera a vida.
Redondo é o seio
que amamenta a cria.
Redonda é a Lua
da imaginação.
Redondo é o Sol
que germina o grão.
Redondo é o Mundo
onde tudo vibra.
Redondos os sonhos,
bolas de sabão…
Redonda a existência
de ciclos sem fim.
Redondo o abraço
que te cola a mim.
Redondo o falo
da fecundidade.
Redondos teus lábios
de sensualidade.
Redondo teu corpo
de apelos carnais.
Redondas as formas
que eu amo demais!
***
(Do livro “Geometrias Intemporais”, Lisboa ano 2000)

REBELDIA
Carmo Vasconcelos
Cavaleiro, toma tento,
que este cavalo tem vento
pelas narinas a soprar,
não o queiras sufocar!
De seda são suas crinas,
não as prendas a esquinas,
não o queiras amarrar!
Que ele dos cascos faz garras
com que rebenta as amarras,
não o queiras dominar!
Não lhe ponhas rédea curta,
que ele ao teu corpo se furta,
não o queiras segurar!
Nem lhe coloques viseiras,
que ele foge pelas ladeiras
não querendo saber de nada…
E veloz, à desfilada,
tomado o freio nos dentes,
os seus quadris não mais sentes,
jamais o podes montar!
***
(Do livro “Geometrias Intemporais”, Lisboa ano 2000)

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