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O motivo
António Barroso (Tiago)

Se há, dentro de nós, um santuário
De tantas emoções que nos percorrem,
São esses sentimentos relicário
De que todos os poetas se socorrem.

À fantasia e ao sonho imaginário,
Dedico mil poemas que me ocorrem,
A uns dou vida, em forma de diário,
Outros vão passando e, assim, morrem.

Queres que te defina o belo, a vida,
O ar que me rodeia, a dor sentida,
A flor que brilha, o sonho que eu abraço!

São momentos fugazes que a alma abriga,
Por isso, não me peças que eu te diga
A quem dedico os versos qu'inda faço.

Parede - Portugal



Obrigado
António Barroso (Tiago)

Quis apressar os teus passos
Quando vinhas para mim;

Quis colher-te, nos meus braços,
Como rosa que se corta
Num recanto do jardim;

Quis ser mais que bom amigo,
Companheiro do dia a dia;

Quis arrombar essa porta
Que se fechava e abria
E se mantinha inconstante;

Quis fazer amor contigo
Numa orgia de desejos,
Cobrir-te toda de beijos
Como um faminto esmoler;

Quis fazer-te minha amante,
Quis fazer-te uma mulher.

Tu nunca soubeste amar
Mais que teu corpo ondulante,
Por isso, eras provocante
Num desejo de agradar,
Como ego que se alimenta
Dum estéril e fácil jogo.

Quiseste brincar com o fogo,
Não sei se foste queimada.

Ficaste, porém sem nada,
Lembrança que se sustenta
Duma só recordação,
Dum momento diminuto.

E se, agora, andas perdida
Num mundo oco e vazio,
É porque a voz da razão
Te sussurra, em desafio:
- Gozei minutos na vida...
... Nunca a vida num minuto!

Esse amor já não perdura,
Tomei, da vida, outro gosto,
Pois o tempo tudo cura
No seu correr apressado.

Não sonho mais que me queres,
Nem me tens aprisionado,
Pois até esqueci teu rosto
No rosto de outras mulheres.

E se nada mais te peço
Porque amar tu não soubeste
E no querer, não ousaste,
Por tudo o que me não deste,
Por tudo o que me negaste,
Nem sabes quanto agradeço!



Amores de verão
António Barroso (Tiago)

Tardes de estio do meu Alentejo
Com moças belas, na rua, passando,
Vagos olhares, rubor de desejo,
E no meu coração as ia guardando.

E iam, e vinham, se tinham ensejo,
E eu, mudo e quedo, amava-as, olhando
O ar furtivo que me atirava um beijo
Perdido nas pedras que iam pisando.

E na tarde morna, cálida, amena,
Nasciam amores cheios de pena
P'los que morriam no mesmo momento,

Ao ver as moças passando, maldosas,
Co'o lenço escondendo as faces de rosas
E risos enchendo o meu pensamento.

Parede - Portugal



Sublime adoração
António Barroso (Tiago)

Adoro a luz suave do seu meigo olhar
Quais estrelas perdidas no céu infindo,
Vagueando envoltas pelo luar, tão lindo,
Vindo meus olhos, serena e feliz, beijar.

Adoro, loucamente, o seu perfume etéreo,
Pedaço de si mesma que em meu corpo rola,
Quebrando, por encanto, o tom altivo e sério,
Mudado em sorrisos e dado como esmola.

Adoro a sua boca rubra, quente, dessas
Que a um santo faz gemer em subtil tremor,
Boca sensual que recorda mil promessas
Promessas de ventura, de prazer, de amor.

Adoro o seu cabelo flutuando ao vento,
Nas faces rosadas, ansioso, me quedo,
Que os lábios parece pedirem-me, a medo,
Um beijo fugaz em um súplice lamento.

Adoro o seu corpo de Vénus esculpida,
Ante o colo de garça, respiro bem fundo,
Os seios que espreitam a cobiça do mundo
São pomos maduros duma deusa atrevida.

Adoro ver, perplexo, seu perfil d?antanho,
Despi-la, com o olhar, é sublime tortura,
Mas adoro, ainda mais, pela fechadura,
Vê-la, soberba, entrar em capitoso banho.

Parede - Portugal



A minha neta
António Barroso (Tiago)

Quando todos afirmam: - Muito esperta!
Nos seus três anos feitos de inocência,
Fico, por instantes, de boca aberta,
Pensando como a birra é uma ciência.

Se a teimosia, agora, é descoberta
A que o crescer vai dando consistência,
Basta-lhe um afago, a meiguice certa,
Em súplica que apela à paciência.

E quando no meus olhos vê, intensa,
Uma zanga que a voz já torna imensa,
De ameaças contidas, como aviso,

Alheia a tais vinganças, tais desejos,
Com a entrega de abraços e de beijos,
Responde à diabrura com um sorriso.

Parede - Portugal

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  24.01.2012