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Energia estranha
Amilton Maciel


Qual torrente descida da montanha 
Em fúria impetuosa e desatina 
E que, apesar de toda a sua sanha, 
Não encontra ao final uma turbina...

É triste o assistir força tamanha, 
Perder-se no alagado da campina... 
Assim ocorre com a energia estranha 
Que rompe do meu peito e me alucina!

O vigor a que dão nome de amor 
E que em meu coração é muito forte, 
Quer, antes de morrer, servir a alguém!

Qual a enxurrada quer se descompor 
Só após ter tido em vida melhor sorte...
Mas para tanto, não encontrou seu bem!




Estro perdido
Amilton Maciel


Quem achar por aí um estro perdido, 
Conte-me, por favor, que irei buscá-lo; 
Pois deve ser o meu, que anda sumido,
Feito coisa que foge pelo ralo.

Ele é fácil de ser reconhecido; 
Só basta vê-lo e ouvi-lo e num estalo, 
Os trejeitos e a voz desse bandido
Vão logo denunciar de quem eu falo:

A sua timidez é inconfundível, 
O seu cantar é bem desafinado
E seus poemas têm cadência horrível...

Mas assim mesmo prende o meu amor, 
Como um milagre ainda não explicado... 
Sem estro vou morrer de tanta dor!




Íntimas Indagações
Amilton Maciel


Onde estará meu carro de madeira,
Que fiz só com um caixote e rolimã?
Aquele em que eu descia na ladeira,
Levando na garupa a minha irmã?

E a nossa divertida brincadeira
De cabra-cega? E pique? E deTarzan?
Não há mais pipas? Nem atiradeira?
Jogar pião perdeu o seu élan?

Hoje, do que é que brinca a garotada?
Não solta mais barquinhos na enxurrada?
Nem é cow-boy em cabo de vassoura?

Não rola nem sequer velho pneu?
Ninguém tem mais paixão imorredoura?
- Que tempo diferente foi o meu!



Meu jardim
Amilton Maciel


Vou reformar de novo o meu jardim, 
Que está sem viço algum e, pelo jeito, 
Mudas novas requer, pois o capim 
Já sufocou as plantas em seu leito

Encomendei sementes de alecrim 
E brotos de jasmim e amor-perfeito; 
Quero flores olentes, tanto assim 
Como o cheiro que as moças põem no peito....

E, além de perfumadas, quero-as belas 
Para que sempre encantem o meu olhar, 
Quando eu for namorá-las das janelas.

Quero encantar também a minha amada, 
Com seu olor nas noites de luar, 
Já que eu sonho senti-la apaixonada!. 



Parte de nós
Amilton Maciel


Criar poema é qual plasmar um filho...
Damos-lhe todo o amor que houver na gente, 
Porém, depois que solta o nosso anilho, 
Quem toma conta dele é o Onipotente!

Também, quando fazemos sonetilho, 
Queremos que ele seja convincente, 
Correto, puro e tenha certo brilho... 
Mas isso não se dá constantemente!

Ainda bem que o que conta mesmo é amá-lo! 
Quer ele fique lindo, ou um pouco feio,
De porte soberano, ou de vassalo;

Já que é parte de nós, porção de amor,
Que quisemos legar ao nosso meio, 
Por vocação do próprio Criador!

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  24.01.2012