O AMIGO
Alfredo Santos Mendes
Quanto vale a ternura de um amigo,
quando afasta de nós o sofrimento,
nos protege do p’rigo, do tormento,
e faz do seu abraço, nosso abrigo?
Nos defende perante o inimigo!
Se irmana em nossa causa, sem lamento!
Enxuga nosso rosto no momento,
em que a dor traz a lágrima consigo!
Que sente a nossa dor, nossa amargura!
Que é nossa estrela guia em noite escura,
que não nos deixa a sós por um segundo!
Quem tem amigo assim tão dedicado,
e que faz da amizade, apostolado,
tem a maior fortuna deste mundo!

CALENDÁRIO
Alfredo Santos Mendes
Arranquei uma folha ao calendário.
Foram mais trinta dias que passaram.
Tentei imaginar quantos ficaram,
privados deste gesto tão primário!
E a quantos foi mostrado o itinerário,
que as leis do passamento decretaram!
E o sono mais que eterno iniciaram...
Com suas mãos envoltas num rosário!
E tento equacionar o tempo ido.
Analisar o tempo decorrido...
E quantas folhas posso ‘inda mudar!
Fito o meu calendário e o seu mês!
E penso que chegada a minha vez...
A folhinha não mais vou arrancar!

O PALCO DA VIDA
Alfredo Santos Mendes
Peguei no meu viver, pus nos dois pratos…
Da balança que pesa a minha vida.
Ficou a baloiçar, enlouquecida,
Perante a imensidão de tantos factos!
Desesperei. Quis ver quais os relatos,
Que a deixaram assim, enfurecida!
Teria ela ficado ressentida...
P’lo turbilhão perverso, dos meus actos?
Eu fui mais um actor que desfilou!
Que fez o seu papel, representou!
Que foi palhaço. Herói. E foi guerreiro!
Se errei alguma vez no meu percurso.
Por certo não havia outro recurso,
Terão de condenar, o mundo inteiro!

TRÊS LETRAS
Alfredo Santos Mendes
Apenas com três letras escrevemos,
Palavras com enorme dimensão.
E sendo tão pequenas elas são,
As palavras mais belas que dizemos!
Traduzem a riqueza que mantemos,
Conservada no nosso coração.
São jóias, que não têm cotação…
São a maior fortuna que nós temos!
Três letras que conjugam riso e dor.
E são de uma mulher que com amor,
É o nosso suporte nos revezes!
Tem a palavra mãe tanta grandeza,
Que ao se tornar avó tem a certeza,
Que passou a ser mãe por duas vezes!

SEGREDOS
Alfredo Santos Mendes
Oh mar, me diz por que és misterioso
Que guardas nos corais, no mar profundo?
Que segredos tu guardas no teu fundo
para que às vezes fiques tenebroso?
Que ‘scondes no teu reino poderoso?
O princípio do nada... tão fecundo?
És fonte de energia deste mundo,
que embora maltratado és generoso!
E mesmo quando em fúria desabrida,
trazendo o fervilhar de tanta vida,
desfaleces na areia em longo espasmo...
As ondas que na praia uma a uma,
nós vemos desfazer feitas em espuma,
são explosões de amor...Eterno orgasmo!

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