TU E EU
Adelina Velho da Palma
Só eu consigo ler teu pensamento,
só eu intuo aquilo que te atrai,
só eu conheço o que te descontrai
e sei se as coisas estão a teu contento…
Só eu percebo o verdadeiro intento
de tudo o que da tua boca sai…
Só eu vejo uma mão que se contrai
mesmo que dure apenas um momento!...
Só eu percebo aquilo que te move,
aquilo que te anima ou te comove,
o que te põe bravo ou amargurado…
Só eu te enxergo por dentro e por fora…
Por isso eu para ti sou uma escora
e tu pra mim - um fardo bem pesado

NÃO TE VI
Adelina Velho da Palma
Não te vi. Não chegaria a ver
o teu caixão cheio de margaridas
naquele hiato entre duas vidas
que separa um ser do outro ser…
Não te vi. E não pude reter
a última visão das feições queridas
das mãos entrelaçadas e unidas
do doce olhar que cego sabe ver…
Não te vi!... Mas pude imaginar
véu, cortejo, féretro e altar
da morada onde foste recolhida...
Não te vi!... Ver-te-ei além do mar
naquele venturoso limiar
aonde as margaridas são de vida!...

ANIVERSÁRIO
Adelina Velho da Palma
Passei contigo o teu aniversário
numa cidade de pedra e caruma,
eu de pé, rodeada de bruma,
tu deitada, envolta no sudário…
Passei contigo o teu aniversário
e não falámos sobre coisa alguma,
eu desfeita em palavras de espuma
tu calada, figurante em cenário…
Mas dei-te os parabéns em pensamento
aguardando que a todo o momento
teu eco de existir a mim volvesse…
Mas nada respondeu ao meu apelo,
somente uma visão de pesadelo
de um Cristo sem esperança que morresse…

PASSASTE
Adelina Velho da Palma
Passaste por mim de cara insuflada
o corpo amolecido de gordura
a roupa ao estilo de uma armadura
nuns grandes saltos (des)equilibrada…
Passaste muito bem acompanhada
Por quem te arrastou para a loucura
Te levou a patética aventura
E depois te largou na derrocada…
Passaste aparentando compostura
Olhar inane, medicamentada,
Sem noção da própria triste figura…
Passaste um dia pela minha estrada
Já não sei de que vinhas à procura
Mas sei que o que te dei foi mesmo nada...

A ÚLTIMA VEZ
Adelina Velho da Palma
Eras um mar tranquilo e cortês
cujos braços de luz e energia
atraíram meu ser em harmonia...
- E amei-te pela primeira vez…
A pouco e pouco teu doce jaez
transformou-se na maior alegria
de uma vida que a sorte exauria…
- E amei-te mais uma e outra vez…
Mas eis que finalmente veio um dia
em que a névoa teu brilho desfez
e te envolveu um cheiro a maresia…
E percebi que era chegada a vez
de te retribuir a simpatia…
- E amei-te pela última vez…

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