Eu sou

Eu sou a que no mar anda perdida,
A que busca a luz para a escuridão,
A que se entrega sempre sem medida,
Intensa e transparente de paixão.

Eu sou a correnteza, sou o rio
De águas cristalinas a avançar.
A força motriz, o calor no frio.
A energia viva a recriar.

Eu sou a pena que sonha e escreve.
O vinho licoroso que embebe
E delicia o corpo e a alma inteira.

Sou feixe de luz que queima e deslumbra
Mas nunca sombra ténue nem penumbra
Que não vai nem fica, restando à beira.

Nita Ferreira


Mãe

Teu peito é inteira doação.
Teu colo é fortaleza e bem estar.
Teu regaço um amor sem dimensão
Um largo mar de amar e mais amar.

De teus braços como água do ribeiro
Colho puros e frescos madrigais
E a ternura que acende inteiro
Este meu ser de carinhos sem rivais.

Na tua boca silêncios de linho,
Das tuas mãos oiro e carinho,
Pomares teus, só eu sei o valor.

Que não há pérola de igual beleza
Que se assemelhe a tanta e tal grandeza
Da eterna jóia desse teu amor.

Nita Ferreira



Simbiose

Entre o alvor da manhã prateado
E o rubor do sol incandescente
Pairam lava e vulcão incendiado
Língua de fogo, erupção, poente. 

E sobre um corpo branco em colírio
Flores de cetim num toque delicado,
Derramando e tomando em delírio
Nessa dança de fogo eternizado.

Pelo bosque sedento e inquietante
Uma e outra dança bruxuleante
Banhadas pelos cílios do luar

Simbiose só de aromas eleitos
Acácias de neve e amores perfeitos
Na eternidade do verbo amar

Nita Ferreira


Segredo

Chega-te a mim, vou contar-te um segredo:
Meu corpo não é carne, é emoção.
Esse é meu tormento e meu degredo,
Meu pranto, minha dor, consumição.

E meu ser tão voraz de intensidade
É força colossal e turbilhão.
É tufão e vendaval de saudade,
Taça onde se verte a comoção.

Este segredo guarda-o contigo.
Meu sentir, minhas dores em teu abrigo
Ficarão longe das garras do mundo.

E nem a chuva, o frio ou o vento
Hão-de fustigar por um só momento
Meu corpo, alma de emoção profundo!

Nita Ferreira


Palavras emudecidas

Sinto as palavras emudecidas
Que não vêm fluentes aos meus dedos.
Escondidas de mim, entristecidas,
Não querendo escutar os meus segredos.

Tanto eu queria a elas confiar
O enlevo que a minha alma traz.
Oh palavras, pureza de encantar,
Não tenho a certeza de ser capaz!

Pela estrada de ventos e penedos
Domadas por fantasmas e por medos
E em nós que apertam a garganta,

A voz rouca de revolta em mil gritos,
De dor se rabisca nos meus escritos
Enquanto o meu dilema se agiganta.

Nita Ferreira


Pela vereda

Pela vereda caminha sozinha
O corpo a coberto só de um véu
A alma despida da fé que tinha
Saudosa, rumo a um ponto lá no céu

Caminhará até ao infinito
O firmamento acolherá seu grito
De uma vida incansável a lutar
Até de dor falecer o luar

Alheia ao ruído da multidão
Na travessia a noite, a escuridão
São a rota p'ra melhor se encontrar

Que o amor, apoteose do sentir
Tem que ser novo céu, novo porvir
E não dor mas exultação de amar

Nita Ferreira

Asfalto
 
Olho de mim
Todas as ruas
Becos e avenidas
Todas as mortes
E todas as vidas
E desencontro-me
Nas dores
Das minhas feridas
Mas de novo me encontro
Sou pilar e prossigo
E o meu peito aberto
Pedra angular vai liberto
E sem abrigo
 
Disperso-me
Perco-me de mim
Envolvo-me assim
Embrenho-me
Na vida e enlevo-me
Embebo-me no risco
Rabisco e arrisco
E petisco
E tenho-me
E detenho-me
Acendo-me
Ateio-me
E incendeio-me
 
Mas
Apago-me assim
E absorvo-me
Em todas as ruas
E vielas de mim
Também nas estradas
E avenidas
Nas mais largas
E compridas
E aí me encontro
E desencontro
Em todas as mortes
E vidas
 
E percorro-me
E sinto-me
Vivo-me e penso-me
Repenso-me
No erro acertei
No acerto errei
E avanço
Determinada
Faço-me à estrada
Sigo mas não sei
Se no asfalto da vida
Me perdi
Ou me encontrei
 
Nita Ferreira
 

Escassez

Entre a névoa e a sombra
há um anseio rendilhado
um cinzento branqueado
e um desejo
ainda não sepultado


Entre a tristeza e o sonho
de pólen alimentado
há um feixe de luz viva
que se escapa da penumbra
num voo de adeus ao breu

Entre o ficar e o partir
há um querer de largas asas
sobre o reino do tumulto
que atravessa mares e barcos
e dilui nódoas e charcos

 
Entre a rajada do vento
e a bruma fosca e lassa
há uma lágrima que escorre
de um clamor que não morre
num sentir de vida escassa

 
Nita Ferreira

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  18.10.2009  

  

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